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CONTO
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Edelvésio – Luís Fernando Veríssimo

(*)
Luís Fernando Veríssimo

                 

“Edelvésio.”

“Isso lá é nome?”

Edelvésio baixou os olhos, mas não sorriu. Depois ergueu os olhos e encarou o treinador, ainda sem sorrir.

“Que posição?”, perguntou o treinador.

“Meio.”

“Pé direito ou esquerdo?”

“Os dois.”

O treinador deu a camisa e disse:

“Entra.”

Edelvésio entrou. Era um treino para selecionar jogador. Fila de aspirantes. Cada jogador tinha poucos minutos para mostrar o seu futebol. Edelvésio mostrou. Era bom.

E chutava mesmo com os dois pés.

Depois o treinador disse:

“Você fica”.  Mas fez uma ressalva: “Edelvésio não dá”.

“É o meu nome.”

“Você não tem apelido, não?”

“Não.”

“Dedé? Vevé? Delinho?”

“Não.”

“Como é que te chamam em casa?”

“Edelvésio.”

“Não dá. Tem que arranjar um apelido.”

“Não quero.”

O treinador encrespou.

“Como não quer? Desde quando jogador tem que querer? Eu quero. Edelvésio não pode.”

“Por que não?”

O treinador fez um gesto mandando Edelvésio embora.

“Quer saber de uma coisa? Ode ir indo. Te manda.”

Edelvésio deu as costas para o treinador e começou a se afastar.

“Espera”, disse o treinador.

Tinha se lembrado dos chutes de Edelvésio com os dois pés. Precisava de um jogador como ele. Botou uma mão no seu ombro e disse:

“Não precisa ser apelido. Como é seu sobrenome?”

“Santos.”

“Você pode ser Santos.”

“Não.”

“Inventa outro nome. Mauro. Você gosta de Mauro? Ou Silas. Silas é nome de jogador. olha aí: Mauro Silas. Você está com a carreira feita. Um Mauro Silas chega à seleção só pelo nome.
Já um Edelvésio não chega a lugar nenhum.”

“Não.”

“Edmilson. Pronto. Edmilson eu aceito. É parecido com Edelvésio.”

“Não.”

“Edel. Pode ser Edel.”

“Você também não ajuda! Por que não?”

“Por que meu nome é Edelvésio.”

O treinador perdeu a paciência. Definitivamente.

“Pode ir embora.”

Semanas depois, inicio da temporada, o time do treinador se viu mal diante do primeiro adversário. Era para ser um jogo fácil, mas o time adversário tinha um jogador infernal com a dez. Estava acabando com o jogo. E chutava com as duas. Tinha feito um gol com a esquerda e outro com a direita.

“Eu conheço esse cara”, disse o treinador.

Mas não havia nenhum Edelvésio na escalação do outro time.

O treinador consultou a escalação de novo. Lá estava ele. Só podia ser ele. Mas não aparecia o nome. Aparecia o apelido.
“Teimoso.”


(*) Luís Fernando Veríssimo, escritor brasileiro. O presente conto foi extraído do livro "Brasil Bom de Bola", Editora Tempo d´Imagem, 1998.

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