CRÔNICA
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Para sempre
(*) Wilson Bueno
E porque a solidão fosse só um começo, eu te encarei de frente sabendo, de antemão, da nossa certa e futura tragédia pessoal. Não, nem eu nem você jamais seríamos sozinhos.
Eu acordava então para a glória de existir e você me comovia os olhos molhados. Seus cílios, a íris esmeralda. Talvez nem fossem tão preciosos - eu é que me inventava em você de folhas e agapanto.
Era uma hora incerta e quente - disso eu me lembro - e fomos, os dois, um homem, uma mulher e a noite pânica. Pela primeira vez, em muitos anos, eu me disse que a felicidade podia ser mais que uma esperança - essa ilusão sempre renovada para não morrermos de nós mesmos - precocemente.
Você também me disse, com um gesto de lábio e olhos, que só agora você era a primeira imortal em toda a história humana. E que aquele era o seu único motivo de viver.
Agora que estou morto e vigora em mim o seu cadáver simples, agora posso dizer - também pela primeira vez sem mentir - que não sonho. Você vive em mim e eu em você, eternamente.
(*) Wilson Bueno, escritor paranaense.
A crônica "Para sempre" foi publicada originalmente na revista Idéias e depois reproduzida naEscrita, edição 13.
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