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ENSAIO
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O EU e a mídia
Uma reflexão sobre os meios de comunicação


(*)
Denise Paro

 

Em pleno princípio do século XXI, é preciso um esforço hercúleo para conceber uma sociedade sem a presença da parafernália midiática. A intensidade da relação entre a mídia e o ser humano é tamanha que nos levou a incorporar certos movimentos repetitivos no dia-a-dia: apertar teclas para digitar, acionar o controle da televisão, atender o celular ou clicar no mouse.

O casamento entre a mídia e cidadão deixa marcas e rastros na nossa forma de agir. Para alguns, pode causar um distanciamento da realidade, uma certa alienação ou fuga. Mas para outros, é a senha para descoberta de um novo mundo – a leitura de um bom livro é exemplo claro.

Para entender a relação entre a mídia e o receptor é preciso conhecer os meios de comunicação e também fazer um exercício de autoinvestigação. Você já parou para pensar qual é a sensação que cada veículo desperta em você?

Com diferentes formatos, os meios de comunicação tendem a desencadear reações distintas nas pessoas. Livros, jornais e revistas são um convite à imaginação. Ao ler, a pessoa é instigada a construir um mundo à parte, na medida em que imagina personagens, lugares ou reflete sobre diferentes temas. A leitura estimula a capacidade criativa do receptor pelo fato de dar margens à criação. Até mesmo o rádio é um meio de comunicação instigador porque permite ao ouvinte imaginar cenas ou episódios inspirados na mensagem oral, ao modo de uma composição.

Na ponta inversa, está a televisão - da forma como é largamente usada hoje. Sinônimo de imagem, a TV tem cenas rápidas e tende a limitar a criação do telespectador, se comparado ao jornal e livro. Na obra, “Televisão – A Vida pelo Vídeo”, o professor da Universidade de São Paulo (USP), Ciro Marcondes Filho, discorre sobre o tema. “Não se tem tempo de parar sobre uma determinada cena, pois todas elas se movem num ritmo muito rápido. Não se pode fixar em detalhes. Só se intencionalmente o realizador do programa quiser que o telespectador os observe” (Marcondes Filho, 1990, p. 13).

Marcondes Filho faz uma comparação entre a fotografia e a televisão. Na fotografia, segundo o autor, o receptor escolhe detalhes que mais o interessam. Já na televisão “eles são escolhidos para as pessoas, e isso acarreta grandes perdas: o direito de escolha e da livre concentração, além de serem impostas as cenas que interessam principalmente ao realizador do programa e ao patrocinador”.

Outros autores, incluindo o sociólogo espanhol Manuel Castells, referência nos estudos das novas mídias, também tecem análises sobre o papel da televisão. Na trilogia “A Sociedade em Rede”, Castells recorre aos estudos de Marshall McLuhan e Neil Postman, e aponta: a televisão representou o fim da Galáxia de Gutenberg, “ou seja, de um sistema de comunicação essencialmente dominado pela mente tipográfica e pela ordem do alfabeto fonético” Castells (2000, p.357).

Na obra, o autor coloca em debate a capacidade elucidativa da tipografia, ou seja, uma plataforma que oferece condições para o receptor pensar de maneira conceitual, dedutiva e sequencial na qual haveria “valorização da razão e ordem; aversão à contradição; grande capacidade de desligamento e objetividade”.

Já na televisão, conforme a obra de Castells, “o entretenimento é a supra-ideologia de todo o discurso”. Para o autor, a TV está para nossa diversão e prazer, um veículo de fácil comunicabilidade que exige um menor esforço psicológico se comparado aos meios tipográficos Castells (2000, p.358).

O interessante nessa discussão é avaliar as considerações dos autores e a realidade do Brasil. Pesquisa feita a pedido da Secretaria de Comunicação Social da Presidência da República (Secom) e divulgada em março deste ano indica que a televisão e o rádio são os meios de comunicação preferidos pelos brasileiros. A TV é assistida por 96,6% da população e o rádio acessado por expressivos 80,3%. Quanto aos jornais e revistas, a realidade é inversa. Cerca de 46% costumam ler jornais, e menos de 35%, revistas. Perto de apenas 11,5% são leitores diários dos jornais tradicionais.

A internet no País segue a tendência de crescimento mundial e já é utilizada por 46,1% da população. A pesquisa foi aplicada com maiores de 16 anos em todas as regiões brasileiras e consta em um artigo publicado pelo cientista social Antonio Lassane.

Vista como difusor primordial do entretenimento, seja em novelas. filmes e até mesmo em quadros jornalísticos, a TV é hoje a grande campeã de audiência no Brasil. Assim, em um exercício digno de um veículo tipográfico, podemos pensar o quanto a leitura é importante e fazer associações entre a relação do brasileiro com a televisão. Reflita e tire suas próprias conclusões.

Referências:

CASTELLS, Manuel. A Sociedade em Rede. 8ª. Ed. São Paulo: Paz e Terra, 2000.
MARCONDES FILHO, Ciro. Televisão: a vida pelo vídeo. 4ª. Ed. São Paulo: Moderna, 1990.
LASSANE, Antonio. A Velha Mídia está morrendo: Carta Maior. São Paulo, julho 2010. Disponível em: http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4695&boletim_id=725&componente_id=12178www.cartamaior.com.br. Acesso em: 4 de julho de 2010.

 

(*) Denise Paro é mestre em Comunicação e jornalista em Foz do Iguaçu, Pr. O ensaio acima foi publicada originalmente na revista Escrita, edição 13.

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