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CRÔNICA
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A Biblioteca Imaginária de Iguaçu

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Gilles Lapouge

(**) Traducao de Nathalie Husson

Acredito que alguém me contou esta historia mas não tenho certeza. Nos anos 50, vivia no Brasil, em Iguacu, muito perto das altas e caudalosas Cataratas - como as de Niagara-, um homem apaixonado pelas Belas -Letras. Como o troar das cataratas e bastante monótono, este homem se entediava. Assim, lia sem parar.

Um dos autores que ele apreciava era Michel Butor do qual ele tinha todas as obras, encadernadas com arte e arrumadas numa estante envidraçada da sala. Como Butor e um escritor prolifero, a coleção se avolumava com incrível rapidez. A estante recebia duas obras num ano normal, três quando Butor extravasa.

Infelizmente, os grandes colecionadores são obstinados. Por mais que Michel Butor se esforçasse para escrever diligentemente, o homem de Iguacu conseguia ultrapassa-lo. Butor perdia terreno e o letrado das margens das cataratas ficava sem rumo. Faltavam-lhe munições e sustento. Sua vida tornou-se um calvário. Aguardava com ansiedade a correspondência da Franca e nada de Butor! Dava voltas em sua biblioteca: teve que se render a evidencia: havia penuria de Butor.

Impunha-se uma decisão. Já que o escritor frances era um grande preguiçoso, o homem de Iguacu resolveu assumir seu lugar. Comprou um lote de livros em branco, deu-lhe titulos com sonoridade butoriana e mandou encaderna-los. Com um pouco de tristeza, confessava que esses livros não tinham ainda sido escritos por Butor, mas acrescentava: “Quem se sabe?”, e ele pedia um pouco de paciência.
A biblioteca de Iguacu ressuscitou. Avolumou-se. Os futuros livros de Michel Butor multiplicavam-se, era como um milagre. Subiam ao longo das paredes, assim como as plantas tropicais. Invadiam a casa, as adegas, os sótãos.

O sistema inventado por este homem entusiasta e engenhoso, elegante e de muito futuro. Satisfaz a demanda de um espírito insaciável. Economiza a forca do escritor que não precisa mais passar noites em claro em sua escrivaninha para que sua bibliografia aumente.

Sugere uma outra lição que já foi evocada a propósito da morte de Tolstoi e dos escritos de Jesus Cristo: por mais que o autor se empenhe, nunca conseguira escrever a sua obra completa. Esta existe num exemplar unico, como o Corao, la em cima, num canto do céu ou, como os obras de Butor, na biblioteca delirante de Iguacu. Os objetos um pouco vulgares que chamamos livros são apenas o avatar, o eco, o reflexo ridículo e incompleto do livro que não existe. Um pouco o que o Corao e para o livro inexistente dissimulado nos bastidores do céu.

E por isso que, da obra incompleta de um autor, so é conhecida a parte superficial, ilusória, quase derrisória, consternadora e ate grotesca, - por exemplo as obras que de fato Michel Butor (ou Stendhal, ou Rimbaud) escreveu - , e ficará faltando eternamente essa biblioteca ilimitada, essa biblioteca do limbo que um homem estranho, muito exaltado e insaciável criou em Iguacu, sendo que o proprio autor nunca soube que a escreveu.


(*) Do livro de Gilles Lapouge, O Barulho da neve, capitulo O livro e a cinza, Albin Michel, 1996.
Gilles Lapouge nasceu em 1923 na Franca. Desde 1948, é jornalista do Alger-Republicain, Combat, France-soir e correspondente em Paris do periódico brasileiro o "Estado de SP". a partir de 1958. Produtor na Radio France-Culture, colaborador do jornal Le Monde e da Quinzaine litteraire. Ultimo representante dos escritores humanistas da literatura de viagens, ele e sua esposa Maryvonne Lapouge foram os pioneiros pela divulgação e pelas traduções para o francês de numerosas obras da literatura brasileira.

(**) Tradução de Nathalie Husson, Mestre em direito pela Faculdade de Direito, Economia e Administracao Jean Monnet, Paris XI (Paris-sud-Orsay). Fundou a Kunda Livraria Universitaria com Claimar Granzotto em 14 de julho 1989 em Foz do Iguacu, Parana, Brasil. Fundadora e diretora da Associacao Franco-Brasileira de Foz do Iguacu de 1982 ate 2007.

(***) Michel Butor (1926): Um dos criadores da chamada escola literaria Nouveau Roman, nos anos 60, o lado do nobel Claude Simon, Nathalie Sarraute et Alain Robbe-Grillet.

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