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CONTO
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Tic tac

(*) Daiane Pereira Rodrigues


Tic-tac. Os cachorros ladram ao longe, a garoa embala o sonho de alguém. O apito do guarda noturno ecoa. Tic-tac.

Deitada na cama ela sonha com aquele mundo real-maravilhoso das crônicas de viagem. Ela esteve lá, descobrindo as maravilhas de um novo mundo. Lembranças, impressões e sensações voltando à mente. Tic-tac. Mesmo continente e realidades tão distintas. Não foi com Sevilla que ela comparou toda uma cidade, foi com a Curitiba dos farois da XV. Tic-tac.

Havia dormido mal durante toda a viagem. O motorista a sacudiu “você tem que descer aqui”. Ambiente escuro, penumbra e pó, madeira velha e uma música em língua estranha ao fundo. Tic-tac —maldito relógio que não deixa dormir. Aqui não se come, mas estou com fome — pensou naquela manhã. Hoje em dia já diria che vare’a. Tic-tac. Podia levantar agora e aquecer o leite, com essa chuvinha não há relógio que resista.

Tentou comprar duas empanadas naquela manhã, espanhol meio truncado, insegurança, medo. Não entendia aquela prosódia guarani da velha banguela. Pelo menos o banheiro era limpo, e a cozinha? Será que era? Tic-tac. Ainda ouve os cães. Havia muito ovo nas empanadas que deviam ser de frango. Quase deu a quantia errada de dinheiro por esses pastéis de ovo, não se habituara ao cambio, talvez nunca aprendesse a cambiar, sempre mudando de um país a outro. Tic-tac, a moto do guarda passa cuidadosamente, mas ela não se sente protegida. Protegida ela se sentia nos braços do seu karai guasu. Nunca soube se o podia chamar assim: grande senhor. Leu num livro de Roa Bastos. Queria ter dito “rohaihu, che karai guasu” mas mal conseguia dizer “eu te amo”, não sabia o que sentia. Tic-tac.
Agora ainda é meia-noite na cidade de José Assunção Flores e ela tem saudade, ela quer ouvir aquelas canções que embalaram seu amor impossível. Não, não gosta de falar de amor, prefere ouvir as canções da sua aventura no exterior, da sua relação passageira pela hispano-américa.

Echar de menos, extrañar, não sabia ao certo o que era em castelhano. Era simplesmente a vontade de dizer “che raku eterei nderehe” e de sentir-se plena. Tic-tac, talvez não seja o relógio que não a deixe dormir. Quer olhar a baía de Assunção más allá de la Chacarita, sentir o cheiro do verde e o ruído dos pássaros, ver os índios na rua vendendo seu artesanato colorido, ao lado dos vendedores de cds piratas. Agora não tem a baia, tem o Jardim Botânico, o Museu Oscar Niemeyer. Ontem ela quis ir ao museu. Mas de repente sentiu que não era ali onde queria estar, era no Hotel del Lago em San Bernardino, era na velha casinha de Casaccia que agora era um hotelito em Areguá, cenário daquele romance que gostou tanto.  Leu na cidade de Espinoza, pode percorrer os mesmos caminhos que Ramón Fleitas. Talvez também estivesse sob o efeito de alguma babosa, veneno cruel, fofoca infundada, conservadorismos que a prendiam num muro de medo e incertezas. Antiga e nova aristocracias do país, disseram os professores. Tanto ficou por conhecer dessas cidades... Tic-tac. Já não ouve os latidos, mas o relógio a atormenta, quer se concentrar no barulho da chuva para dormir. É inútil. Tic-tac.

Haverá aberto o balcão dos seus olhos de gata? Se recusa a pensar que foi só um amor de verão, nem era verão... Tic-tac, já passam das 2h. O apito está tão distante agora, em alguns minutos estará mais alto de novo, toda noite é a mesma coisa. Todo dia tem sido a mesma coisa. “Estoy aburrida” diria, esta vida tekorei não a deixa feliz. Precisa de ação, só funciona fazendo mil coisas ao mesmo tempo. Um paraguaio talvez dissesse “che kueraima” para esse sentimento de chateação. Nunca pensou que a melhor tradução fora “estou chateada” — nós ficamos chateadas quando estamos tristes com alguma coisa, pensava.

Está ansiosa. Só percebe o tic-tac do relógio e os ruídos noturnos.  Lembra o que seus amigos diziam: “cómo tembrás, mi vida. Tenés que ir a un médico”, “ lo que admiro en vos es tu capacidad de autorreflexión”, “no se puede hablar de algo si uno no lo tiene aclarado”, “mentime na, decime na que me amás, por favor”.

Ela dizia, mas nunca soube se estava mentindo. Tanta coisa em tão pouco tempo. Tic-tac, ela pode sair e ver o céu, mas com essa chuva não poderá ver a lua. A essa hora deve fazer uns 24°C do outro lado da fronteira, em plena madrugada, ela estaria vendo a lua cheia, sentindo o perfume dos jasmins. Esse sempre será o cheiro de Assunção para ela, e também aquele cheiro de urina, de fossa, das esquinas imundas aos arredores de casa. Uma vez choveu forte por lá. Tic-tac. De repente a luz apagou, os vidros quebraram, árvores e postes cairam. Tic tac. Nunca sentiu tanto medo. Tic. Nunca se divertiu tanto. Tac.  A vida realmente não precisa ser perfeita, pensa esquecendo o relógio. Molhou os pés na água do lixo naquela noite em que ganhou o apodo de musa das cerejeiras. Cerejeras? Por que cerejas? Não gostava muito de cerejas.

Continua a chuva. Tic-tac. O capítulo que sempre lhe pareceu a descrição perfeita da cidade vem à mente. Tic-tac. “no había casi tránsito”. Tic-tac. “Ardían las piedras de las calles y las paredes de los edificios” Tic. “Un viento norte caliente se encajonaba en las calles y azotaba el rostro de los pocos trauseúntes con sus mil lenguas de fuego” tac. 

A cidade de fato está um forno, nunca se sentiu tão personagem como neste instante, é mais um transeunte sofrendo com as línguas de fogo daquele vento. “Parece que estou sob um secador de cabelo” diz rindo de si mesma enquanto sente falta do clima curitibano. O que estava pensando sobre o clima? Chove há dias, nem parece verão, mas é tão gostoso dormir com chuva, e poder estar tranquila, sem excessos. Um clima perfeito. Sempre pensou assim. Mas agora, tic-tac... ... ... ... tic-tac... ... ... tic... conta as horas para voltar ao calor e arder naquele laranjal tic-tac...  ... ... tic-tac... tic- tac.... tic... ... tac...

O relógio vai sumindo no horizonte do lago Ypacarai. Ela já não controla seus sonhos.


(*) Daiane Pereira Rodrigues é estudante de letras da Universidade Federal do Paraná e vive há dois anos em Assunção, Paraguai, onde vivencia e estuda linguagem e contato cultural entre Brasil e Paraguai..

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