CRÔNICA - Que Bento não ouça
Paulo Bogler
Estou na torcida para que os principais conselhos da homilia de Bento XVI, durante a sua viagem pelo país, não sejam colocados em prática.
Espero que o Brasil permaneça laico, mesmo sabendo que isso corresponda mais a uma formalidade. Prefiro que os estudantes brasileiros sejam poupados do ensino religioso compulsório, já que liberdade de escolha, no caso, resguarda o direito de pluralidade religiosa e o de não se ter fé alguma.
Não vou renunciar às situações e práticas mundanas, carnais, que regozijam a vida e a sua essência, durante a nossa estadia terrena. Mais ainda, sou pouco afeito, confidencio, aos cânones que conferem poderes sobrenaturais aos humanos.
Entre pecados confessáveis e outros nem tanto, continuarei aperfeiçoando a solidariedade, a tolerância e o respeito dispensados aos meus iguais.
Que o 265º sucessor do apóstolo Pedro, entre as solicitudes de milhões de crentes brasileiros, não escute os reclames de alguns irmãos evangélicos, consignados com prelados iguaçuenses, que reivindicam a mudança do nome de um dos saltos mais conhecidos das Cataratas do Iguaçu, talhado popularmente de Garganta do Diabo. O movimento acredita que o termo atrai maus fluídos por aludir ao gênio do mal: belzebu, o próprio.
Minha torcida, portanto, é para que Bento XVI não mire o seu olhar alumbrador sobre o pleito dos religiosos locais. É prudente, na atual contemporaneidade vivida, não confundir os papéis do Estado e de sua sociedade, com motivações religiosa e monacal.
Para piorar a contenda, o Pontífice Supremo poderia tomar conhecimento do fato de viverem na região, milhares de fiéis de Maomé, que cultivam o islamismo, religião monoteísta surgida na Península Arábica, durante o sétimo século de nossa Era. Como se sabe, Bento XVI invocou as palavras de Manuel II, imperador bizantino, para afirmar que o islã teria formulado mandamento que supõe a defesa da fé pela espada, além de promover “coisas más e desumanas”.
Que o Papa nos poupe, se descobrir a cruel concentração de renda existente em Foz do Iguaçu, nas mãos de poucos, e, por conseqüência, o alto grau de pobreza de muitos. Aqui é, portanto, lugar propício para a combinação de rituais que aliviam a alma e ações que ajudam a manter o corpo. Isto é, trata-se de espaço privilegiado para a atuação da Teologia da Libertação, braço da Igreja Católica que defende o engajamento dos seguidores de Jesus Cristo em questões políticas e sociais, fortemente combatido e cerceado por Bento XVI.
Não é demasiado lembrar, que há cerca de vinte anos, na condição de prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé (antigo tribunal da Inquisição), o ainda cardeal Joseph Ratzinger condenou o teólogo da libertação, o brasileiro Leonardo Boff, ao “silêncio obsequioso”, valendo-se dos preceitos medievais.
Que o Papa nos poupe, se ficar sabendo que por aqui se matam centenas de jovens, fazendo da cidade a recordista brasileira em homicídios juvenis. Envolvidos ou não com o crime, principalmente com o tráfico de drogas, todos os dias jovens morrem sem que seus algozes sequer sejam detidos e punidos.
As condições que envolvem os homicídios lembram um pouco a situação que enfrentou o padre Jon Sobrino, de El Salvador, que se destacou por sua luta contra a matança desenfreada de pobres daquele país e que recentemente foi alvo de censura pelo Papa, por alegada inspiração em ideais “marxistas”.
Desânimo maior sentiria o sumo representante da igreja de Roma, caso descobrisse que no comércio informal praticado na Tríplice Fronteira, uma porção de pobres latino-americanos, resultado do sistema excludente vigente, vende impunemente um artigo infernal - musical, para piorar ainda mais as coisas, usado comumente para evitar a transmissão de doenças e a gravidez não pretendida.
E se políticos defensores de posições consideradas por estes de interesse da maioria de seus representados, merecerem a excomunhão, como cogitado, no caso dos governantes mexicanos, em Foz do Iguaçu Bento XVI teria muito trabalho.
Certamente, nesta fronteira onde tudo é revirado ao contrário, por coerência, a excomunhão de políticos se justificaria por tudo aquilo que eles deixam de fazer por seu povo. Paulo Bogler é ativista cultural em Foz do Iguaçu.
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