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Natureza morta

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  –  Um poema de Pagu  –

Retrato de Pagu, feito por Cândido Portinari em 1933

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Os livros são dorsos de estantes distantes quebradas.
Estou dependurada na parede feita um quadro.
Ninguém me segurou pelos cabelos.
Puseram um prego em meu coração para que eu não me mova
Espetaram, hein? a ave na parede
Mas conservaram os meus olhos
É verdade que eles estão parados.
Como os meus dedos, na mesma frase.
Espicharam-se em coágulos azuis.
Que monótono o mar!

Os meus pés não dão mais um passo.
O meu sangue chorando
As crianças gritando,
Os homens morrendo
O tempo andando
As luzes fulgindo,
As casas subindo,
O dinheiro circulando,
O dinheiro caindo.
Os namorados passando, passeando,
O lixo aumentando,
Que monótono o mar!

Procurei acender de novo o cigarro.
Por que o poeta não morre?
Por que o coração engorda?
Por que as crianças crescem?
Por que este mar idiota não cobre o telhado das casas?
Por que existem telhados e avenidas?
Por que se escrevem cartas e existe o jornal?
Que monótono o mar!

Estou espichada na tela como um monte de frutas apodrecendo.
Si eu ainda tivesse unhas
Enterraria os meus dedos nesse espaço branco
Vertem os meus olhos uma fumaça salgada
Este mar, este mar não escorre por minhas faces.
Estou com tanto frio, e não tenho ninguém …
Nem a presença dos corvos.
_______________________
Patrícia Galvão, militante política, jornalista, escritora brasileira (1910-1962). “Natureza Morta”, um dos poemas mais importantes de Pagu, foi editado no jornal Diário de São Paulo, em agosto de 1948, com o pseudônimo de Solange Sohl.


A Perfeição

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  –  Uma prosa poética de Clarice Lispector. Uma fotografia de Ana Isabel Galeano Mysczak  –

“Encontros”, de Ana Isabel Galeano Myskzac

 

O que me tranquiliza é que tudo o que existe, existe com uma precisão absoluta. O que for do tamanho de uma cabeça de alfinete não transborda nem uma fração de milímetro além do tamanho de uma cabeça de alfinete. Tudo o que existe é de uma grande exatidão. Pena é que a maior parte do que existe com essa exatidão nos é tecnicamente invisível. Apesar da verdade ser exata e clara em si própria, quando chega até nós se torna vaga pois é tecnicamente invisível. O bom é que a verdade chega a nós como um sentido secreto das coisas. Nós terminamos adivinhando, confusos, a perfeição.

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Clarice Lispector, escritora brasileira (1920-1977)


Os Estatutos do Homem

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  –  Um poema de Thiago de Mello  –

 

Os Estatutos do Homem
(Ato Institucional Permanente)

A Carlos Heitor Cony

Artigo I
Fica decretado que agora vale a verdade.
agora vale a vida,
e de mãos dadas,
marcharemos todos pela vida verdadeira.

Artigo II
Fica decretado que todos os dias da semana,
inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

Artigo III
Fica decretado que, a partir deste instante,
haverá girassóis em todas as janelas,
que os girassóis terão direito
a abrir-se dentro da sombra;
e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
abertas para o verde onde cresce a esperança.

Artigo IV
Fica decretado que o homem
não precisará nunca mais
duvidar do homem.
Que o homem confiará no homem
como a palmeira confia no vento,
como o vento confia no ar,
como o ar confia no campo azul do céu.

Parágrafo único:
O homem, confiará no homem
como um menino confia em outro menino.

Artigo V
Fica decretado que os homens
estão livres do jugo da mentira.
Nunca mais será preciso usar
a couraça do silêncio
nem a armadura de palavras.
O homem se sentará à mesa
com seu olhar limpo
porque a verdade passará a ser servida
antes da sobremesa.

Artigo VI
Fica estabelecida, durante dez séculos,
a prática sonhada pelo profeta Isaías,
e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

Artigo VII
Por decreto irrevogável fica estabelecido
o reinado permanente da justiça e da claridade,
e a alegria será uma bandeira generosa
para sempre desfraldada na alma do povo.

Artigo VIII
Fica decretado que a maior dor
sempre foi e será sempre
não poder dar-se amor a quem se ama
e saber que é a água
que dá à planta o milagre da flor.

Artigo IX
Fica permitido que o pão de cada dia
tenha no homem o sinal de seu suor.
Mas que sobretudo tenha
sempre o quente sabor da ternura.

Artigo X
Fica permitido a qualquer pessoa,
qualquer hora da vida,
uso do traje branco.

Artigo XI
Fica decretado, por definição,
que o homem é um animal que ama
e que por isso é belo,
muito mais belo que a estrela da manhã.

Artigo XII
Decreta-se que nada será obrigado
nem proibido,
tudo será permitido,
inclusive brincar com os rinocerontes
e caminhar pelas tardes
com uma imensa begônia na lapela.

Parágrafo único:
Só uma coisa fica proibida:
amar sem amor.

Artigo XIII
Fica decretado que o dinheiro
não poderá nunca mais comprar
o sol das manhãs vindouras.
Expulso do grande baú do medo,
o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
para defender o direito de cantar
e a festa do dia que chegou.

Artigo Final.
Fica proibido o uso da palavra liberdade,
a qual será suprimida dos dicionários
e do pântano enganoso das bocas.
A partir deste instante
a liberdade será algo vivo e transparente
como um fogo ou um rio,
e a sua morada será sempre
o coração do homem.

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Thiago de Mello, poeta brasileiro.


Prefácio

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  –  Um poema de Manoel de Barros.
Uma fotografia de Yuma Martellanz  –

 

“Niñez”, foto tomada por Yuma Martellanz em Bocas de Toro, no Panamá.

 

PREFÁCIO

Assim é que elas foram feitas
(todas as coisas) —
sem nome.
Depois é que veio a harpa e a fêmea em pé.
Insetos errados de cor caíam no mar.
A voz se estendeu na direção da boca.
Caranguejos apertavam mangues.
Vendo que havia na terra
Dependimentos demais
E tarefas muitas —
Os homens começaram a roer unhas.
Ficou certo pois não
Que as moscas iriam iluminar
O silêncio das coisas anônimas.
Porém, vendo o Homem
Que as moscas não davam conta de iluminar o
Silêncio das coisas anônimas —
Passaram essa tarefa para os poetas.

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Manoel de Barros, poeta brasileiro (1916-2014).
Yuma Martellanz, fotógrafa italiana em trânsito pelo Caribe, colaboradora da revista Escrita.


Outra Margem

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  –  Uma prosa poética de Dan Dorneles  –

Será orvalho ou madrugada quando o que se sente não é nem afago nem suor-temporal? Um retalho de céu esculpido em fronteiras que o vento balança. Pelas frestas e copas de árvores gigantes jorram aos montes mariposas e estrelas. Luzidias criaturas a escorrer entre os galhos e pelos dessas deusas madeira – tão verdes, serenas- de folha ou de fruto. Murmúrios, morcegos, floreiras, silêncio bravio na corda dos nervos. Ali anoitece, no suspiro das pedras, cachoeiras, peraus, no sangue dos rios a correr e andar. Resistência na terra, como se fera querendo parir. E nascem milhões: sementes de espera no cio das restevas com trigo maduro e mãos de porvir. Permaneces no corpo, na seiva das plantas, na carne dos bichos, na carne do homem (que é bicho também). Se parto, me partes, coisa tão inteira: tão parte daqui, tão parte de mim.
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Dan Dorneles estuda Letras Español Português como Línguas Estrangeiras na UNILA, em Foz do Iguaçu, Pr.    Imagem: Lua em Foz do Iguaçu, céu de fronteira. Texto e foto inseridos na edição 49 da Escrita.


Fronteira da educomunicação

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  –  Programa Tirando de Letra leva ao Colégio Três Fronteiras a arte da chilena Violeta Parra  –

 

Estudantes da primeira série do ensino médio do Colégio Três Fronteiras, em Foz do Iguaçu, participaram de atividades artístico culturais em homenagem aos cem anos de Violeta Parra (1917-1967). Elas aconteceram no dia 20 de novembro, quando, baseado em um vídeo sobre a vida da artista chilena e uma exposição que reproduz trabalhos visuais feitos por Violeta, mediadores de leitura da Guatá desenvolveram roda de conversa e um exercício de expressão com o objetivo de estimular o interesse pelos artistas latino-americanos e pela proximidade entre as línguas portuguesa e espanhola.

As atividades culturais nas escolas de Foz do Iguaçu são totalmente gratuitas e compõem a parte itinerante do programa Tirando de Letra, mantido pela Associação Guatá.

A pedagoga Mayumi Takahashi, da equipe matutina do colégio, avalia que atividades com essa natureza têm sentido profundo no cotidiano das escolas públicas. “A importância principal de ações como a da Guatá está em evidenciar para nossos estudantes a riqueza da produção cultural da América Latina. Principalmente quando a atividade tem interatividade com os alunos, como é o caso do exercício proposto de criação textual a partir de informações sobre o assunto apresentado.”

Ao final dos trabalhos no Colégio Três Fronteiras, que está localizado na região do Porto Meira, em Foz do Iguaçu, mais de 10 cartazes poéticos haviam sido produzidos pelo grupo de estudantes. Conforme explica Kariny Wermouth, da coordenação do programa Tirando de Letra, eles passarão a fazer parte do acervo fixo da Guatá, a exemplo de outros já colhidos em outros locais. “Nossa ideia é viabilizarmos no ano que vem uma exposição reunindo todo esse acervo.”

Banca de Leitura da Guatá

Como é de praxe, centenas de panfletos e outros adereços poéticos foram distribuídos, juntamente como exemplares da revista Escrita para os presentes à atividade cultural. Entre os autores, fragmentos do trabalho de celebridades das letras latino-americanas, como Neruda, Eduardo Galeano, Cecília Meireles e Carolina de Jesus estão mesclados à expressão verbal de autores locais, muitos desses constituídos como tal a partir de uma primeira visita aos atos públicos da Guatá – Cultura em Movimento. Só entre os autores publicados nas 49 primeiras edições da revista Escrita, podem ser contabilizados mais de 200 pessoas até então inéditas editorialmente falando.

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Guatá/Silvio Campana – Fotos e Vídeo: Julio Fornari


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