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A verdadeira estória de Sally Can Dance (and the kids)

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  –  Um conto de Caio Fernando Abreu  –

 

EPIGRAPHE:
“Os discos voadores (OVNIs) existem e são pilotados por seres procedentes de outros pla­netas, esta a conclusão a que chegou o gover­no dos EUA, o qual lançará uma campanha com a finalidade de preparar o mundo para aceitar os visitantes extraterrestres.” (From Almanaque do Correio do Povo 1975, p. 21)

 

INTRODUCTION TO HELL

La madrecita empezó a hablar machucado, q nem se podia sequer tentar conversar naquele hogar, q estavam todos locos, no começo Sally até deu força, pêro la ma­drecita empezó a hablar cada vez más machucado y con más frecuencia, então Sally deu um pontapé no cuzco (era un perrito de estimação, peruano autêntico) q costuma­va se roçar en sus legs y gritou q cachorro tinha q ser tra­tado na porrada, senão vira bicha, sacou, madrecita? La madrecita dijo q não entendia cockney y q cada vez fica­va más difícil, y diga-se a favor de Sally q nessa época ela tentou de muitos ways, cuando la barra pesava mucho apanhava o café ou o prato de comida (as peleias eram always na hora das refeições) y subia para su habitación, donde se quedava ouvindo Bob Dylan (sobretudo “Hurrycane” y fumando horrores, hasta q la madrecita rides again: q Sally estava mui magra, q essa mania de não comer car­ne, não q eu tenha nada contra, pêro mira: yo comi car­ne más de cinquenta anos y aqui estoy guapa.

Sally encarava dura a violência carnívora da madreci­ta emputecida, mas preferia always não ser agressiva, mas dizer o q pensava realmente com maiúsculas (era tão pre­tensioso pensar q pudesse um day dizer realmente tudo q pensava com maiúsculas) — enfim, Sally calava. Só q nos últimos tempos, vinha observando sem tomar nenhuma decisão about that, mas nos últimos tiempos vinha calan­do demás.

One day Sally enlouqueceu y sem querer falou para her brother-sister q era apenas una sombra y the brother-sister of Sally foi correndo contar todo para la madrecita y una hermosa mañana when Sally was posta em repouso entre sus almohadas indianas ouvindo justamente “Here comes the sun” (little darling), inequívoco sinal de su baja voltagem moral necessitada de brilhos ou something up cuando la madre adentro abruptamente en su habitación y con la fala mazia mazia y una tisana de bergamoteira q Sally até curtiu because tinha lido q bergamoteira bajava a pressão botava down-down y cuando estava in the better of the party traduzindo para la madrecita la segunda parte da letra de “Eleanor Rigby” eis senão q dois homens (zarrões) puseram la puerta abajo enfiaram Sally numa T-shirt de fuerza y carregaram-na para una clínica psiquiátrica es decir para un hospício já que Sally não trabalhava y portanto não descontava inps além disso era maior de idade y su madre una pobre viúva ai ai coitada de mim ai de mim ai de mim no hospício após una terapiazita rápida à base de eletrochoques neozine artani & insulina,
Sally finalmente retornou aos braços da sociedade q a ge­rara inteiramente recuperada y hoy es un elemento útil à coletividade trabajando oito horas por dia no bnh don­de já conseguiu financiamento para una quitinete y pro­vendo satisfatoriamente segundo relatório da assistente social las modestas necessidades de su perra madrecita.

THE END (exit)
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Caio Fernando Abreu, escritor brasileiro (1948-1996). 


Causos (1)

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  –  Um conto de Eduardo Galeano  –

 

 

Nas fogueiras de Paysandú, Mellado Iturria conta causos. Conta acontecidos. Os acontecidos aconteceram alguma vez, ou quase aconteceram, ou não aconteceram nunca, mas têm uma coisa de bom: acontecem cada vez que são contados.

Este é o triste causo do bagrezinho do arroio Negro.

Tinha bigodes de arame farpado, era vesgo e de olhos saltados. Nunca Mellado tinha visto um peixe tão feio. O bagre vinha grudado em seus calcanhares desde a beira do arroio, e Mellado não conseguia espantá-lo. Quando chegou no casario, com o bagre feito sombra, já tinha se resignado.

Com o tempo, foi sentindo carinho pelo peixe. Mellado nunca tinha tido um amigo sem pernas. Desde o amanhecer o bagre o acompanhava para ordenhar e percorrer campo. Ao cair da tarde, tomavam chimarrão juntos; e o bagre escutava suas confidencias.

Os cachorros, enciumados, olhavam o bagre com rancor; a cozinheira, com más intenções. Mellado pensou em dar um nome para o peixe, para ter como chamá-lo e para fazer-se respeitar, mas não conhecia nenhum nome de peixe, e batizá-lo de Sinforoso ou Hermenegildo poderia desagradar a Deus.

Estava sempre de olho nele. O bagre tinha uma notória tendência às
diabruras. Aproveitava qualquer descuido e ia espantar as galinhas ou provocar os cachorros:

— Comporte-se — dizia Mellado ao bagre.

Certa manhã de muito calor, quando as lagartixas andavam de
sombrinha e o bagrezinho se abanava furiosamente com as barbatanas, Mellado teve a idéia fatal:

— Vamos tomar banho no arrolo — propôs. Foram, os dois.

E o bagre se afogou.

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Eduardo Galeano, escritor uruguaio (1940-2015)


Cem Anos de Solidão – fragmentos

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  –  Dois fragmentos de “Cem Anos de Solidão”, de Gabriel Garcia Marquez  –

1 – Garcia Marquez lendo trecho de Cem Anos de Solidão:

 

2 – A história de Remédios – A Bela

“(…)

Remedios, a bela, foi a única que permaneceu imune à peste da companhia bananeira. Estacou numa adolescência magnífica, cada vez mais impermeável aos formalismos, mais indiferente à malícia e à desconfiança, feliz num mundo próprio de realidades simples. Não entendia por que as mulheres complicavam a vida com camisetas e anáguas, de modo que coseu uma bata de aniagem que enfiava simplesmente pela cabeça e resolvia sem mais trâmites o problema de se vestir, sem desmanchar a impressão de estar nua, que no seu modo de entender as coisas era a única maneira decente de se estar em casa. Amolaram-na tanto para que cortasse o cabelo cascateante que já batia na barriga da perna e para que fizesse um coque preso com pentes e tranças com laços coloridos que simplesmente raspou a cabeça e fez perucas para os santos. O assombroso do seu instinto simplificador era que quanto mais se desembaraçava da moda procurando a comodidade e quanto mais passava por cima dos convencionalismos em obediência à espontaneidade, mais perturbadora ficava a sua beleza inacreditável e mais provocante o seu comportamento para com os homens. Quando os filhos do Coronel Aureliano Buendía estiveram pela primeira ez em Macondo, Úrsula se lembrou de que levavam nas veias o mesmo sangue da bisneta e estremeceu com o horror esquecido. “Abra bem os olhos”, fez tão pouco-caso da advertência que se vestiu de homem e se espojou na areia para subir no pau-de-sebo e esteve a ponto de ocasionar uma tragédia entre os dezessete primos transtornados pelo insuportável espetáculo. Era por isso que nenhum deles dormia em casa quando visitavam o povoado, e os quatro que tinham ficado viviam às expensas de Úrsula em quartos alugados.

 

Entretando, Remedios, a bela, teria morrido de rir se tivesse sabido daquela precaução. Até o último instante em que esteve na Terra ignorou que o seu irreparável destino de fêmea perturbadora era uma desgraça cotidiana. Cada vez que aparecia na sala de jantar, contrariando as ordens de Úrsula, causava um pânico de exasperação entre os forasteiros. Era evidente demais que estava inteiramente nua sob a bata grosseira e ninguém podia entender que o seu crânio pelado e perfeito não fosse um desafio e que não fosse uma criminosa provocação o descaso com que descobria as coxas para aliviar o calor e o prazer com que chupava os dedos depois de comer com as mãos. O que nenhum membro da família jamais soube foi que os forasteiros não tardaram a perceber que Remedios, a bela, desprendia um hálito perturbador, uma brisa de tormento que continuava perceptível várias horas depois de ela ter passado. Homens experimentados nos transtornos do amor, vividos no mundo inteiro, afirmavam não ter padecido nunca de uma ansiedade semelhante à que produzia o perfume natural de Remedios, a bela. Na varanda das begônias, na sala de visitas, em qualquer lugar da casa, se podia assinalar o lugar exato onde estivera e o tempo transcorrido desde que deixara de estar. Era um rastro definido, inconfundível, que ninguém da casa podia distinguir porque estava incorporado há muito tempo aos cheiros cotidianos, mas que os forasteiros identificavam imediatamente. Por isso eram eles os únicos que entendiam que o jovem comandante da guarda tivesse morrido de amor e que um cavaleiro vindo de outras terras tivesse caído em desespero. Inconsciente da aura inquietante em que se movimentava, do insuportável estado de íntima calamidade que provocava à sua passagem, Remedios, a bela, tratava os homens sem a menor malícia e acabava de transtorná-los com as suas inocentes complacências.

 

Quando Úrsula conseguiu impor a ordem de que comesse com Amaranta na cozinha, para que os forasteiros não a vissem, ela se sentiu mais cômoda, porque afinal de contas ficava a salvo de qualquer disciplina. Realmente, tanto fazia comer em qualquer lugar, e não em horas fixas, mas de acordo com as alternativas do seu apetite. Às vezes se levantava para almoçar às três da madrugada, dormia o dia inteiro, e passava vários meses com os horários trocados, até que algum incidente casual voltava a pô-la em ordem. Quando as coisas andavam melhor, levantava-se às onze da manhã e se trancava durante duas horas completamente nua no banheiro, matando escorpiões enquanto espantava o denso e prolongado sono. Em seguida, jogava água em si mesma tirando-a da caixa com uma cuia. Era um ato tão prolongado, tão meticuloso, tão rico de situações serimoniais, que quem não a conhecesse bem poderia pensar que estava entregue a a uma merecida adoração do seu próprio corpo. Para ela, entretanto, aquele rito solitário carecia de qualquer sensualidade, e era simplesmente uma maneira de matar o tempo enquanto não sentia fome. Um dia, quando começava a se banhar, um forasteiro levantou uma telha do teto e ficou sem respiração diante do tremendo espetáculo de sua nudez. Ela viu os olhos aflitos através das telhas quebradas e não teve nenhuma reação de vergonha, mas sim de preocupação.

 

-Cuidado – exclamou. – Você vai cair.

 

-Só quero ver você – murmurou o forasteiro.

 

-Ah, bem, – ela disse. – Mas tenha cuidado que essas telhas estão podres.

 

 

O rosto do forasteiro tinha uma dolorosa expressão de espanto e parecia lutar surdamente contra os seus impulsos primários, para não dissipar a miragem. Remedios, a bela, pensou que ele sofria de medo de que as telhas quebrassem e se banhou mais depressa do que de costume, para que o homem não continuasse em perigo. Enquanto se jogava água, disse a ele que era um problema que o teto estivesse naquele estado, pois ela acreditava que a camada de folhas apodrecidas pela chuva era o que enchia o banheiro de escorpiões. O forasteiro confundiu aquela conversa com uma forma de dissimular a complacência, de modo que quando ela começou a se ensaboar cedeu à tentação de dar um passo adiante.

 

-Deixe-me ensaboá-la – murmurou.

 

-Agradeço sua boa intenção – disse ela. – mas posso perfeitamente fazê-lo sozinha com as minhas duas mãos.

 

-Só as costas – suplicou o forasteiro.

 

-Seria um desperdícios – ela disse. – Nunca se viu ninguém ensaboar as costas.

 

Depois, enquanto se enxugava, o forasteiro implorou com os olhos cheios de lágrimas que se casasse com ele. Ela lhe respondeu sinceramente que nunca se casaria com um homem tão bobo que perdia quase uma hora, e até ficava sem almoçar, só para ver uma mulher tomar banho. Por fim, quando vestiu a bata, o homem não pôde suportar a comprovação de que realmente não usava nada embaixo, como todo mundo suspeitava, e se sentiu marcado para sempre com o ferro ardente daquele segredo. Então arrancou mais duas telhas para se atirar no interior do banheiro.

 

-É muito alto! – ela o preveniu assustada. – Você vai se matar!

 

As telhas apodrecidas se despedaçaram num estrondo de desastre e o homem mal conseguiu lançar um grito de terror e fraturou o crânio e morreu sem agonia no chão de cimento. Os forasteiros que ouviram o barulho na sala de jantar e se apressaram em levar o cadáver perceberam na sua pele o sufocante cheiro de Remedios, a bela. Estava tão entranhado no corpo que as rachaduras do crânio não emanavam sangue e sim um óleo ambarino impregnado daquele perfume secreto, e então compreenderam que o cheiro de Remedios, a bela, continuava torturando os homens além da morte, até a poeira dos ossos. Entretanto, não relacionaram aquele acidente de horror com os outros dois homens que haviam morrido por Remedios, a bela. Faltava ainda uma vítima para que os forasteiros e muitos dos antigos habitantes de Macondo dessem crédito à lenda de que Remedios Buendía não exalava o sopro de amor mas sim um fluxo mortal. A ocasião de comprová-lo se apresentou meses depois, numa tarde em que Remedios, a bela, foi com um grupo de amigas conhecer as novas plantações. Para o povo de Macondo, era uma distração recente percorrer as úmidas e intermináveis avenidas ladeadas de bananeiras, onde o silêncio parecia trazido de outra parte, ainda sem usar, e por isso era tão difícil transmitir a voz. Às vezes não se entendia muito bem o que era dito a meio metro de distância e que entretanto se tornava perfeitamente compreensível no outro extremo da plantação. Para as moças de Macondo aquela brincadeira nova era motivo de risadas e sobressaltos, de sustos e zombarias, e de noite se falava do passeio como de uma experiência de sonho. Era tal o prestígio daquele silêncio que Úrsula não teve coragem de privar Remedios, a bela, da divesão e lhe permitiu ir numa tarde, desde que pusesse um chapéu e uma roupa adequada. Assim que o grupo de amigas entrou na plantação o ar se impregnou de uma fragrância mortal. Os homens que trabalhavam nas valas se sentiram possuídos por uma estranha fascinação, ameaçados por um perigo invisível, e muitos sucumbiram à terrível vontade de chorar. Remedios, a bela, e suas espantadas amigas conseguiram se refugiar numa casa próxima quando estavam já para serem assaltadas por um tropel de machos ferozes. Pouco depois foram resgatadas pelos quatro Aurelianos, cujas cruzes de cinza infundiam um respeito sagrado, como se fossem marcas de casta, selo de invulnerabilidade. Remedios, a bela, não contou a ninguém que um dos homens, aproveitando o tumulto, conseguira agredi-la no ventre com uma mão que mias parecia uma garra de águia aferrada aos bordos de um precipício. Ela enfrentara o agressor numa espécie de deslumbramento instantâneo e vira os olhos desconsolados que ficaram impressos no seu coração como uma brasa de compaixão. Nessa noite, o homem se gabou da sua audácia e se vangloriou da sua sorte na Rua dos Turcos, minutos antes de que o coice de um cavalo lhe arrebentasse o peito e uma multidão de forasteiros o visse agonizar no meio da rua, sufocado em vômitos de sangue.

 

A suposição de que Remedios, a bela, possuía poderes de morte estava agora sustentada por quatro fatos irresfutáveis. Embora alguns homens levianos de palavra sentissem prazer em dizer que bem valia a pena sacrificar a vida por uma noite de amor com tão perturbadora mulher, a verdade é que nenhum se esforçou por consegui-lo. Talvez, não só para vencê-la como também para afastar os seus perigos, bastasse um sentimento tão primitivo e simples como o amor, mas isso foi a única coisa que não ocorreu a ninguém. Úrsula não voltou a se ocupar dela. Em outra época quando ainda não renunciara ao propósito de salvá-la para o mundo, procurou interessá-la nos assuntos elementares da casa. “Os homens são mais exigentes doq eu você pensa”, dizia-lhe enigmaticamente. “É preciso cozinhar muito, varrer muito, sofrer muito por mesquinharias, além daquilo que você pensa”. No fundo se enganava a si mesma, tentando adestrá-la para a felicidade doméstica, porque estava convencida de que, uma vez satisfeita a paixão, não havia um homem sobre a terra capaz de suportar, nem que fosse por um dia, uma negligência que estava além de qualquer compreensão. O nascimento do último José Arcadio e sua inquebrantável vontade de educá-lo para Papa terminaram por fazê-la desistir das suas ocupações com a bisneta. Abandonou-a à sua sorte, confiando que mais cedo ou mais tarde aconteceria um milagre e que, neste mundo onde havia de tudo haveria também um homem com suficiente serenidade para cuidar dela. Fazia muito tempo que Amaranta tinha renunciado a qualquer tentativa de convertê-la numa mulher útil. Desde as tarde esquecidas do quarto de costura, quando a sobrinha mal se interessava por rodar a manivela da máquina de coser, chegara à conclusão simples de que era boba. “Vamos ter que rifar você”, dizia-lhe perplexa diante da sua impermeabilidade à palavra dos homens. Mais tarde, quando Úrsula se empenhou para que Remedios, a bela, assistisse à missa com a cara coberta por um véu, Amaranta pensou que aquele recurso misterioso acabaria por ser tão provocante que muito em breve haveria um homem intrigado o bastante para procurar com paciência o ponto fraco do seu coração. Mas quando viu a forma insensata com que desprezou um pretendente que, por muitos motivos, era mais apetecível que um príncipe, renunciou a qualquer esperança. Fernanda não fez sequer a tentativa de compreendê-la. Quando viu Remedios,a bela, vestida de rainha no carnaval sangrento, pensou que ela era uma criatura extraordinária. Mas quando a viu comendo com as mãos, incapaz de dar uma resposta que não fosse um prodígio de patetice, a única coisa que lamentou foi que os bobos de nascença tivessem uma vida tão longa. Apesar de o Coronel Aureliano Buendía continua acreditando e repetindo que Remedios, a bela, era na verdade o ser mais lúcido que havia conhecido na vida, e que o demonstrava a cada momento com a sua assombrosa habilidade para zombar de todos, abandonaram-na ao deus-dará. Remedios, a bela, ficou vagando pelo deserto da solidão, sem cruzes nas costas, amadurecendo nos seus sonos sem pesadelos, nos seus banhos intermináveis, nas suas refeições sem horários, nos seus profundos e prolongados silêncios sem lembranças, até uma tarde de março em que Fernanda quis dobrar os seus lençóis de linho no jardim e pediu ajuda às mulheres da casa. Mal haviam começado, quando Amaranta advertiu que Remedios, a bela, chegava a estar transparente de tão intensamente pálida.

 

-Você está se sentindo mal? – perguntou a ela.

 

Remedios, a bela, que segurava o lençol pelo outro extremo, teve um sorriso de piedade.

 

-Pelo contrário – disse – nunca me senti tão bem.

 

Acabava de dizer isso quando Fernanda sentiu que um delicado vento de luz lhe arrancava os lençóis das mãos e os estendia em toda a sua amplitude. Amarante sentiu um tremor misterioso nas rendas das suas anáguas e tratou de se agarrar no lençol para não caiur, no momento em que Remedios, a bela, comaçava a ascender. Úrsula, já quase cega, foi a única que teve serenidade para identificar a natureza daquele vento irremediável e deixou os lençóis a mercê da luz, olhando para Remedios, a bela, que lhe dizia adeus com a mão, entre o deslumbrante bater de asas dos lençóis que subiam com ela, que abandonavam com ela o ar dos escaravelhos e das dálias e passavam com ela através do ar onde as quatro da tarde terminavam, e se perderam com ela para sempre nos altos ares onde nem os mais altos pássaros da memória a podiam alcançar.

(…)”

 

Clique aqui e leia mais um fragmento do romance de Garcia Marquez

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“Cem Anos de Solidão”, romance de Gabriel Garcia Marquez, escritor colombiano, Prêmio Nobel de Literatura em 1982. (1927-2014) 


Vou embora com o circo

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  –  Um conto de Mano Zeu  –

A gente atravessava a cidade inteira pra se ver. Era mais fácil ficar morando junto. Foi o que acabou acontecendo. Sabe o que eu mais gostei quando vi aquela pessoa pela primeira vez? As covinhas que se formavam no rosto quando sorria. Pensei comigo: “ai, como eu queria me enterrar nessas covinhas”. É claro que não foi o que eu disse. Na verdade eu nunca lhe contei esse detalhe. Na época eu achava desimportante. Queria surpreender com palavras bonitas, inteligentes, mas o que saiu foi o clássico: “você vem sempre aqui?”, “será que chove?”. E que chuva. Tempestade, trovão, trégua. Poderia chover eternamente por sobre o infinito desse encontro. Nós dois molhados, tremendo de frio. Química, café, cafuné. A pessoa gostava sem açúcar. Eu gostava doce. Depois ficou tudo meio sem sal. A rotina sabe jogar e não entra em campo pra perder. O mesmo papai e mamãe, feijão com arroz, a mesma musica, poltrona. Um dia após o outro. Os ponteiros do relógio no mesmo andamento. O roteirista perdeu a criatividade. A gente vai achando que está tudo bem. Que é assim mesmo. Se acostuma. Não percebe mais as entrelinhas dos dias. As noites se padronizam. Mas lá no fundo fica aquela luz acesa como uma interrogação. Você fecha os olhos e ela lá, acesa, como que questionando algo. Quem dorme com um barulho desses? Boa pergunta!!! Eu não consegui. Parei o filme no meio. Chutei o pau da barraca. Fugi com o circo. Muitos falaram que eu abandonei as bets, mas na verdade eu mudei o jogo. Quando vi a imensidão do mar, o horizonte a se perder nas vistas, os pássaros pálidos, congelados no ar, na paisagem morta, imortalizada num quadro, agradeci a escolha. Luz, câmera, ação. A água salgada mexe com a gente. O barulho das ondas. Cheiro de céu azul. Até a chuva é diferente. Molha o corpo com sabor de som. Depois foi a cachoeira, sonora, seguindo seu curso, mãe da eternidade. Depois a terra seca, se refazendo em fendas, ceifadora de sorrisos. Depois a floresta, úmida, guardiã dos mistérios, provocadora de passos. Nuvens nuas, nuances, sulcos, ciclos. E lá no fundo a luz acesa. Passos desajeitados, estranhamento, entranhamento. Os prédios engolindo o céu. A tarde cinza engolindo a noite. O gosto de asfalto no céu da boca. Fugir da rotina se tornara uma rotina. Por onde andará aquelas covinhas? Será que sabe que estou por aí, sem rumo certo, cavando minhas covas? Esse farol aceso me iluminando o peito. Me cegando aos poucos. Me afogando em faltas. Um descompasso de vôo. Pedregulhos, paralelepípedos. O vento áspero roçando a face. Os membros do corpo em desconcerto. Desconforto. Sentidos em desencontro. Coração e cérebro em desacordo. Um precipício de vozes, silenciosas, soando súplicas, semeando fel. Sepultando falas. Um vazio preenchendo o peito. Uma palavra pendente. Um olhar por sobre a fragilidade da existência. Uma cobra engolindo o rabo. O gênesis no âmago do ômega. Bateu sombra nos sonhos. E a luz acesa.

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(do livro Contos que me Contam – de Mano Zeu). Conto incluído na edição 49 de Escrita.


Ir a Ti?

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  –  Uma crônica de Nêgo Pessôa  –

Rua central de Irati, nos anos 50. (Foto: radionajual)

Nasci em Irati. Principalmente, vivi em Irati. Irati, Irati, Irati – “rio de mel”? Nem tanto, não exageremos. “Ir a ti” – como no poema do Foed Castro Chama – não vou mais. Nada contra; apenas Vosmecê está na minha memória “como um cão vivo/ dentro de uma sala./ como um cão vivo/ dentro de um bolso./ como um cão vivo/ debaixo dos lençóis,/ debaixo da camisa,/ da pele”.

Irrati, Irrati, tera querida? Claro, claro! Mas que gênio teve a brilhante ideia de recrutar um polaco de cada colônia para o coro que gravou em acetato o hino da cidade? Deu no que não poderia deixar de dar. O inconfundível sotaque contaminou a pesada bolacha e tingiu-a indelevelmente. Não nos arrependemos. Ficou engraçado, é típico. Afinal de contas somos ou não somos “terra de polacos”?

Ah! Os polacos! Quem escreverá o sempre renovado, o inesgotável anedotário dos polacos de Irati? Por certo a obra exigiria um batalhão de autores de pelo menos 500 maçudos volumes – todos impotentes, nenhum capaz de captar aquele involuntariamente cômico sotaque, só reproduzível “via oral” e por alguém com o talento de Dr. Fornazzari ou do Luiz Fernando Arzua. Correrei o risco? Sim. Não consigo resistir à tentação de divulgar duas jóias verdadeiras, duas legítimas peças de uma possível antologia. Vamos lá?

O cenário da primeira é um clube de jogo, uma mesa de pif-paf e o nosso herói, Kurubela – um polaco imenso, magro, desajeitado, louco por cartas. Noite alta, céu risonho, eis que pinta uma parada de tirar o fôlego. Pelo menos seis parceiros foram à luta. Repique, contra-repique, volta, contravolta – uma montanha de fichas sobre o pano verde. E a mão começa! Compra-descarta-compra-descarta-compra-descarta… e nada de bate. Silêncio pesado. Atmosfera pesadíssima. E o baralho chegando ao fim. Eis senão quando o Kurubela vai ao monte, compra uma carta, abre um descomunal sorriso e comunica: “Suzinho comprei!” e bateu. Quase linchado. Tiveram de chamar a policia.

O cenário da segunda é a frente do bar do Maluf – melhor quibe e o melhor picolé do mundo. O herói? Alex. Sim, aquele mesmo que jogou na seleção paranaense, no Londrina, no Água Verde, no Botafogo de Ribeirão Preto, No Corinthians, no Operário de Ponta Grossa e no meu querido, no meu amado Clube Atlético União Olímpico.

Meses depois de ter ido jogar no Operário, Alex veio a Irati rever a família, os amigos. Que reencontrou na frente do já citado Maluf. E para os quais começou a contar uma jogada que realizara no último Ope-Guá. A seguinte: “Apanhei a bola na nossa intermediária, fintei o Nivaldinho, driblei o Lara, passei pelo Fausto e pelo Arnaldo e… tchan, tcha, tchan (comentário meu, CAP), di rolandinha, rolandinha, pro Roberto”. (Amável leitor, se você não subtrair um erre das palavras rolandinha e Roberto a anedota não terá graça alguma, certo?). Mas nem só de polacos vive Irati.

A minha cidade é a terra da Denise Stoklos, do Foed Castro Chamma, do José Maria Orreda. Orreda, como Plutarco, só não deixou Irati para não empobrecê-la. A sua história da cidade é incomparável, um “tour de force” que merece no mínimo uma estátua. A Denise dispensa apresentação: é um nome internacional. Mas o Foed, que mora o Rio de Janeiro, precisa ser descoberto urgentemente pelos paranaenses que amam a poesia. É, sem favor algum, altíssimo poeta. Poeta dificílimo, para iniciados, para “happpy fews”. Barra pesadíssima, o Foed – leitor de Rimbaud, Mallarmé, Jorge de Lima…

E como esquecer a política, os políticos, os embates do PSD com o PR? Convém recordar que Irati teve dois governadores de estado: João Mansur e Emílio Gomes. E, num determinado período, quatro deputados, três estaduais e um federal. Para um “covalzinho”, nada mal.

E as disputas esportivas, especialmente as do futebol. Que jogos! Que surras demos no Iraty velho de guerra, nós do Olímpico, nos memoráveis anos de 1957-58-59 e 60. Tetra campeões. De verdade. Um título atrás do outro. Rato; Anciutti e Danclise, Zenos- Baggio e Jaime; Pires-Quadros-Ney-Alcides e Peru.  Meu filho, nunca mais verás time igual a este. Aleluia.

E as inolvidáveis justas de sinuca? Afonso x Zanoni; Biju x Negrinho; Biduca x Periquito (que levava 20 pontos e todas as bolas livres). E a célebre negra entre o Batata e o Tico Visinoni, então? Somente sete a mesa. A preta terrível, que fazia tremer os mais frios, na marca do cinco; colada na tabela de saída, a branca. Vezo do Tico. Caçapa cantada. E o Tico gritou: “Lá em cima!” E tacou. E não é que embocou?! Mas o Batata não hesitou. Foi à sua lousa e marcou sete pontos. Pra ele, Batata! Sob o especioso argumento que lá onde o Tico tinha encaçapado o sete não era “lá em cima”, mas “lá em baixo”!

Irati, Irati, “rio de mel”?. Não, rio de memórias, rio da infância e rio da adolescência, rio dos rios de verdade – rio das Antas, das Lousas, das Pedras, onde pelados fugíamos do Bolek, implacável guardião. Irati, Irati do Grupo Escolar Duque de Caxias, do Colégio São Vicente, do Colégio das Freiras, do Colégio Irati. Irati, Irati da Santa e da zona – que ficava na rua da Mina. Irati das festas, dos bailes, das sinucas, das brigas e das piadas. Irati do Cine Theatro Central onde paquerávamos as meninas em flor ao mesmo tempo que comíamos toneladas de pipocas servidas no escuro pelo Herculano. Ir a ti? Não vou mais. Carrego você na minha memória. Hoje, amanhã e sempre.
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Nêgo Pessôa, jornalista e escritor paranaense. (1942-2017). Texto extraído da revista Ideias.


“El Gran Capy”

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  – Jornalista de Foz lança livro sobre arte circense e aventura de viver. Publicação está à venda on line e conta a história de Antônio Francisco Iunovich, considerado um dos grandes motociclistas do mundo.

 

Clique aqui ou na imagem para ler o primeiro capítulo de “El Gran Capy”

O domínio da linguagem, adquirido com o ofício de escrever, coloca a jornalista Patrícia Iunovich frente a frente com a sua própria história, com as memórias suas e as de sua família, que são inseparáveis. Iunovich acaba de lançar o livro El Gran Capy, em que conta a vida do pai, Antônio Francisco Iunovich, sucesso mundial da muralha e do globo da morte, quarenta anos passados.

Considerado um dos grandes motociclistas do mundo, El Gran Capy obteve fama retumbante e tanto dinheiro que pareceriam nunca terminar. Ambos acabaram. Capy faleceu em 2010, com os pulmões tomados por uma pneumonia, aos 73 anos. Sua última atividade foi no lava a jato que mantinha no Jardim São Paulo, bairro popular da região Leste de Foz do Iguaçu, onde resguardava-se, quase anônimo.

No livro, a jornalista retrata as façanhas de Capy no Globo da Morte e na Muralha da Morte, um cilindro de madeira que forma uma espécie de arena, em que os pilotos manobram a mais de 80 quilômetros por hora. Ao biografar o grande motociclista, o personagem, Patrícia Iunovich rememora a vida de Antônio Iunovich, seu pai.

O livro é cheio de histórias curiosas, divertidas, emocionantes. A autora revela, também, um pouco de como foi a própria infância. A filha de Capy morou em um parque e mudava de escola mês a mês. Lançada pela Editora Geração, a publicação está disponível para a pré-venda pela internet, via Amazon. Clique para acessar.

 

El Gran Capy As fantásticas aventuras de um motociclista na Muralha da Morte é uma narrativa sensível sobre um homem e seu sonho, sua vida equilibrista permeada de heroísmo e contradições, vitórias e derrotas. Os acontecimentos contados no livro por Patrícia Iunovich são próprios das pessoas que cometeram a maior das ousadias: viver plenamente.

 

Fotografias que documentam a arte e a coragem de Capy no auge de sua fama foram reproduzidas na publicação.

 

O grande Capy

Argentino, Antônio Francisco Iunovich ganhou o apelido de Capy na infância, devido aos salientes incisivos centrais. Ainda jovem, deixou seu país para escapar ao exército e ganhou fama no Brasil. Entre as décadas de 1960 e 1990, atuou em circos, como o Orlando Orfei, e parques de diversões espalhados por vários países da América do Sul. Ele viveu em Foz do Iguaçu por quase duas décadas.

Prestigiado, Capy fazia espetáculos para públicos restritos, tendo apresentado para convidados como Nelson Gonçalves, Dedé Santana e Jair Rodrigues. Ele foi o proprietário da única Muralha da Morte existente no Brasil, onde foi admirado e festejado por seu talento, até vender o equipamento para o Circo Beto Carrero, em 1987.

Leia o primeiro capítulo de “El Gran Capy” clique aqui 

 

PATRÍCIA IUNOVICH é jornalista, formada pela Universidade de Ribeirão Preto, SP. Mora desde os 21 anos em Foz do Iguaçu, na fronteira com o Paraguai e a Argentina. Atualmente responde pela Superintendência de Comunicação Social da usina Itaipu Binacional. Patrícia foi repórter do jornal O Estado do Paraná e colaborou com O Estado de S. Paulo. Foi também professora universitária no curso de jornalismo da faculdade UDC. (Fonte: Amazon)

Serviço:

El Gran Capy – As fantásticas aventuras de um motociclista na Muralha da Morte
Patrícia Iunovich
Editora Geração, 176 páginas
Dimensões: 15,6 x 23 x 1,5 cm
Valor: R$ 30,52
Pedidos on line, clique aqui

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Guatá/ (Com informações do JIE e da Revista Piauí)


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