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CULTURA?

...Elaine Rodinski Mota Mello

O ano era o de 1987. Em Foz do Iguaçu, um grande evento estava programado “em prol da Casa da Cultura”. Era o I Festival de Cultura de Foz do Iguaçu. O Oeste Paraná Clube fora o local escolhido para as manifestações artísticas. Eram três dias inteiros de programação, incluindo exposição de artes plásticas, apresentações de dança, música, literatura, teatro, mágica e cinema. Eu era estudante de piano, aluna da professora Rosely de Souza Mota.

Alguns alunos foram convidados para tocar no palco do Oeste às 16 horas do dia 30 de maio. Todos foram se apresentando, um a um, sendo que o repertório, basicamente, era de música erudita. O público? Era pequeno, formado de parentes, amigos e alguns curiosos, que se dispunham a estar ali, em plena tarde de sábado. Éramos 5 alunos. No programa, feito em papel datilografado e fotocopiado e que guardo até hoje, constam os nomes dos nobres pianistas: Milene Moreira, Ana Laura Angeli, Caroline Giostri, Daniel Binotto e eu, que, lembro-me, era a última a tocar.

Naquela tarde, cada um que se apresentava ia ao microfone e falava sobre a música que tocaria. Quando chegou a minha vez, fui ao microfone e percebi que o público estava um pouco irrequieto. Ao iniciar a primeira música do meu repertório – que me lembro tinha composições de Cláudio Santoro, como as “Paulistanas” –, percebi que o público não estava só irrequieto. Estava se comportando muito mal. Havia crianças correndo entre cadeiras; eu ouvia o barulho de cadeiras sendo arrastadas; ouvia garrafas de refrigerantes caindo ao chão; ouvia gritos das crianças; eu sentia um verdadeiro falatório no salão do clube.

Em resumo: tocar diante daquilo tudo era um verdadeiro exercício mental! A concentração tinha que ser imensa... Ao terminar a primeira música, fui ao microfone e então vi que estava diante de uma situação muito delicada. À minha frente, algumas pessoas sentadas, interessadas em ouvir o que eu tocava e falava. Próximo à porta de entrada do salão, estava montada a exposição de artes plásticas. É claro que haveria pessoas conversando naquele recinto! Como montar uma exposição em um mesmo espaço onde acontece um recital de piano? Bem, respirei fundo e continuei a minha saga. Afinal de contas, havia quem quisesse me assistir.

Continuei bravamente. Até que percebi que entrava para os camarins uma fila de homens. E, inacreditavelmente, barulhos ensurdecedores começavam na sala ao lado. Era barulho de facas sendo afiadas. Depois é que fui saber que após o recital de piano, fora do programa inicial, aconteceria a “Dança do Facão”!!!!! “Deus do céu!” – eu pensava. “Isso não pode estar acontecendo comigo!!!” Minha paciência se esvaiu.

Enquanto tocava a penúltima música, estava decidida a ir ao microfone e xingar aqueles mal-educados! Platéia, organizadores, que deveriam ser chamados de desorganizadores... Eu tocava e pensava: “aquele microfone que me aguarde, eu vou esbravejar, vou meter a boca nesse pessoal! Onde já se viu isso”? E fui. Tinha vontade de gritar, de chorar. Na verdade, tinha mesmo vontade de virar as costas e ir embora. Mas não podia fazer isso sem dar o meu recado de indignação.

Fui em direção ao microfone. Respirei fundo e disse em alto e bom som (lembro-me como se fosse ontem): “Cultura é música, é literatura, são as artes plásticas; cultura é tudo isso”. E, continuando, aumentei o tom da voz: “mas, infelizmente, cultura também é saber fazer silêncio!”. Aplausos efusivos se seguiram, aplaudiram-me de pé. Mas os facões não pararam, conversas não cessaram. Saí de lá arrasada e fui recebida pela mãe da minha professora de piano, a Dona Arlete, que me abraçou, dizendo que o que eu disse era tudo o que precisava ser dito.

E choramos juntas. Passados tantos anos, ainda não temos a nossa Casa da Cultura. E, lamentavelmente, a educação, pelo jeito, precisa ser revista. No dia das mães deste ano, fui à Igreja Matriz assistir a uma missa onde o Coral de Itaipu e a Orquestra de Câmara de Curitiba se apresentariam. Durante a missa, as músicas foram tocadas e cantadas lindamente. Ao final da cerimônia, foi anunciado que o coral faria um brinde às mães presentes, com 5 músicas populares. Muita gente saiu da igreja. Eu percebia que outras pessoas chegavam, com bebês no colo.Haveria um batizado após a missa! E, enquanto o coral cantava, famílias inteiras se debruçavam em cima de seus bebês em busca do melhor ângulo, tirando fotos e filmando, e lógico, conversando, rindo...

Confesso que achei que o maestro do coral e orquestra não chegaria até o fim. Acredito que o fez em respeito àqueles ou àquelas que tentavam ouvir a apresentação. São dois fatos isolados? Não sei. Talvez tenhamos que inaugurar a nossa Casa da Cultura (lá se vão quase 20 anos de um sonho) para saber como será o nosso comportamento. Em Londrina, em apresentações do Festival de Música erudita no Cine-Teatro Ouro Verde, quando a apresentação se inicia, ninguém mais entra no recinto.

Ninguém tosse, ninguém espirra, ninguém respira. O respeito está em primeiro lugar. E é assim em qualquer ambiente “cultural”. Será que o nosso problema é não ter mesmo um espaço adequado? É falta de organização? De educação? É tudo isso junto? Será que um dia seremos realmente cultos?Elaine Rodinski Mota Mello é bacharel em Turismo, jornalista e música.

 
 
 
 
 
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