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FICÇÃO

Um conto portenho
(Para Lilian e Henrique)

 

(*) Silvio Campana

Um caminho é assim, esfumaçado entre as lembranças.

As nódoas da mágoa entre as árvores do parque. O lamaçal frisando a altura da batata da perna. O anonimato assobiando no céu prestes a desabar em tormenta. As cores do rabo de galo riscando um azul cada vez mais tênue.

Primeiro, o sangue.

Primeiro o caminho e o caminho é o sangue. Um desespero atrás de dois olhos azuis a fitarem calados os lances da escada e o corrimão de cedrilho, encerado naquela manhã. Um, dois, dezenas de degraus devorados em linha e que nunca mais sairão da retina. Em segundos, lá embaixo, a nuca cabeluda dividiu o último lance em passos disformes, lentamente, em definitivo para longe de sua vida.

E o primeiro caminho é o sangue, única ponte neste hiato que a calçada se abrindo em leque deixou. As violetas murchando em março, no amparo à solidão de uma partida; uma garganta seca, uma ausência. De um lado, as pedras brancas e pretas organizadas em conchas e marés, reconstituem o trânsito liberado pelo semáforo da Quinta Rolon e sua turbulência amparando as buzinas da Jose Marti.

- Enlouqueço. Olho para os lados e enlouqueço, contando os carros em meio ao sumiço dele.

O que vem depois dessas veias siamesas arrebentadas em uma manhã de sol no bairro pacato de Buenos Aires? As paredes claras, assentadas pelo pai albanir agora se revestem pela luz que recorta os cantos, angulando pela janela aberta um homem quase menino e uma mulher que aflige o desaparecimento anunciado.

- Vou ao Brasil. Vou à luta, minha irmã. Foi o que me disse daquela vez e última, senhor.

Depois, a vida procurando o irmão. O anonimato entre os desaparecimentos e a carne envelhecendo ao som da intolerância.

Nas conversas, descobriu um outro mundo. Um de delegados, assistentes de necrotérios, bispos, videntes, repórteres. Uma umidade nos olhos, a desconfiança na voz. E mesmo assim a urgência em descerrar essa cortina que amarrou como um caleidoscópio o seu tempo. Anos a contar nos relógios, o amor, o ódio, a esperança, o desapego ao viver.

Lucinda procura Henrique... Carinho irmão abortado num impulso de refazer o caminho del Che. Para ela, loucura de menino, sempre que alguém a contém o discurso sobre a justeza da escolha trilhada junto com aqueles outros.

Durante anos, as cartas voltaram sem nenhuma contestação, inoperância do correio brasileiro, diziam no armazém geral do serviço postal argentino.

- A senhora tenha sempre que fazemos o melhor de nossa parte, mas, infelizmente, não podemos dizer o mesmo de lá.

Um silêncio acordando que a resposta estava em bom tom e sua loucura também. Antes, tentou suplicar em cada porta da burocracia portenha. No início, ia com pudor e recomendações. Roupas discretas mas bem apresentadas e a vontade de se mostrar útil ao país. Todas as manhãs das terças, dia de folga no consultório, pegava a pasta, conferia os documentos, fotos, protocolos colecionados em cada repartição e rumava ao encontro da quase inapelável negativa: não sabemos nada, sobre esse moço.

- Como mesmo que você o chama? Grau de parentesco?

Então vieram os primeiros gritos, a febre extraindo dela o rancor e o remorso.

- A gente se desespera, Sr. Alfredo. E vai ao encontro da morte quando nos damos o direito de vasculhar, querer saber mesmo, mais. E ninguém reconhecer realidade em tua procura. Adoecemos na saúde, sentindo os dias passarem, a vida passar. Acho que isso é a verdadeira loucura.

Nenhuma chaga, nenhum sintoma aparente. O corpo perfeito para a idade, a pele mais e mais tonificada pela angústia. Depois, sim, depois, o sangue. Engrossando. Depois, sim, o corte longo na vontade, a falta de fome, a morte do viver.

Conheci a primeira vez Lucinda com os olhos queimando, querendo voltar o tempo, resgatar a lucidez da mocidade do irmão, a vida em frangalhos. A voz áspera mas graciosa ameaçando calar entre soluços intimidados pela oficialidade do gravador. No outro dia, na manchete do jornal, contei a história de uma traição no parque, em plena floresta encharcada pelas águas que fechavam o verão. Nas entrelinhas, uma outra, ácido sortilégio de quem ficou para trás, apossada pelo sentimento de perder um pedaço de si e de tentar buscar o que não se concretizou, numa busca de profecia inacabada.

Cínico, guardo até hoje os restos do jornal.

- Ele não era ninguém especial. Ele era apenas um menino entusiasmado com a camaradagem dos exilados, com a aventura de se poder pegar o mundo com as mãos e domá-lo, transformá-lo.

O sotaque portenho beirando o choro, numa altivez que fez silêncio na salinha improvisada para a entrevista. Na mesa, uma revista com a foto do militar brasileiro que contava como foram esmigalhados aqueles que ousaram acreditar na volta à luta, num convite macabro. Henrique ali, anônimo, nas linhas da reportagem: “...Havia também um rapaz, novinho de tudo, que acompanhava os brasileiros, amigo dos Carvalho. Gente ingênua, que morre assim que o importante é resolvido; sabe como é a guerra, não?...”

A manhã naquele dia de março compareceu clara, os anéis de fumaça em volta do sol, predominando num azul calmo. No chão encharcado da clareira na entrada do parque, sete corpos contados como troféus na lama. Em um, esvoaçava uma cabeleira comprida, misturando sangue e um chumaço de pólvora na têmpora, organizando a lembrança que depois aplacaria a ausência perene, louca e incontida.

(*) Silvio Campana é jornalista em Foz do Iguaçu.
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Conto publicado na revista Escrita número 0. (Revisitado em 2011)
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