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ENSAIO - Contra a barbárie

Por Paulo Bogler (*)

Pela primeira vez na história, a humanidade terá a quantidade da população urbana maior que o número de moradores do campo. A cidade, especialmente o seu subúrbio, constituiu-se no espaço geográfico e político decisivo para a escolha de um novo caminho de civilização. Por enquanto, ela teima ser o palco das mais variadas chagas sociais.

Pelas cidades do mundo, perambula a maior parcela do bilhão de seres humanos condenados a pobreza abjeta e dos cento e vinte milhões de desempregados e subempregados, estimados pelos organismos internacionais. O modo de vida moderno é marcado profundamente pela injustiça social e cultural, a violência e a degradação do meio ambiente.

No Brasil, por exemplo, em um único ano quase cinqüenta mil pessoas foram assassinadas, de acordo com a Organização dos Estados Ibero-Americanos para a Educação, a Ciência e a Cultura (OEI), sendo que a maioria das vítimas são jovens, negros e pobres. Os dados ainda mostram que 71,8% dos homicídios aconteceram em 556 cidades, o que representa apenas dez por cento dos municípios do país.

A crueza não mede a idade. Em Foz do Iguaçu, localizada no extremo oeste do Estado do Paraná, na fronteira do Brasil, Paraguai e Argentina, a média anual é de 223 mortes juvenis para cada grupo de 100 mil habitantes, sendo a cidade brasileira onde há o maior número de mortes violentas de pessoas com idade entre 15 e 24 anos.

Outro estudo realizado pelo Governo Federal, a partir de dados do ano de 2002, mostra que cerca de 90% dos adolescentes brasileiros em conflito com a lei que se encontram internados, não chegaram a terminar o ensino fundamental. De 9.555 jovens ouvidos pela pesquisa, 51% não freqüentavam a escola, 76% tinham idade entre 16 e 18 anos, mais de 60% eram negros e 80% vinham de famílias com renda de até dois salários mínimos. O levantamento informa também, que na última década, cresceu 363% o número de adolescentes infratores, atingindo o total de 15.426 jovens em unidades de internação.

Todo o documento de cultura, é também um documento de barbárie, escreveu Walter Benjamin (1892-1940), em Sobre o conceito da história , ponderando sobre o otimismo do desenvolvimento social e a inevitabilidade do progresso. O teórico alemão procura demonstrar as ruínas do tempo já vivido como a matéria originária do presente e a importância da leitura política na interpretação acertada da história.

A complexa e contraditória experiência acumulada pela marcha humana, ao longo dos tempos, faz crer que a tragédia da barbárie prevalece sobre o ideal do novo mundo, justo e igualitário, confirmando a célebre e dramática antinomia formulada pelo pensamento social, idealizada ao calor de jornadas rebeldes de outrora.

Tudo aquilo que o homem vive e constrói é resultado de seu universo simbólico, e, este, igualmente, é produto do que o homem vive e constrói coletivamente. O testamento de cultura e de barbárie, portanto, demonstra que a sociedade está no limite de suas alternativas e possibilidades. Isto, observando, de um lado, os avanços em todas as áreas do conhecimento humano, e, de outro, a fantástica concentração de poder e de capital em poucas mãos e o rigoroso distanciamento das condições de vida dessa minoria privilegiada e a imensa maioria das pessoas.

O mundo mudou. O trabalho deixou de ser um fator de identidade, de planejamento de vida e de interligação das pessoas, mesmo em condições de exploração, como ocorreu a partir do desenvolvimento industrial. Após as sucessivas crises do sistema capitalista, cuja fase aguda e intensa se inicia após a Segunda Guerra Mundial, as mudanças nas relações de produção retiraram do trabalho, a sua significação simbólica, que conferia sentido a vida pessoal e ao projeto de sociedade em que estavam inseridos os trabalhadores. O que não modificou foi a relação de exploração, existente entre aquele que produz e aquele que se apropria dos resultados conquistados.

O irrefreável fenômeno do desenvolvimento fez surgir a sociedade de massa, da informação e do consumo, onde tudo se transforma em mercadoria, e, o mundo, num imenso mercado. Nesta fila de esperança - mas também de mentira e de ilusão - há espaço para comprar e para vender. E, nela, também se inscrevem os indivíduos que não se encaixam em nenhuma dessas duas categorias.

O atual processo de globalização que age sobre a economia e a ciência, opera igualmente sobre a representação simbólica da sociedade. As dimensões da existência de cada um, isto é, a idéia que se faz do bem e do mal, do certo e do errado, do sonho e do real, a forma de ser e estar no mundo, são determinadas por um processo impositivo hegemônico. Tudo isso, transmitido por meio de uma eficiente e moderna rede de comunicação, que diz como se deve agir, como se deve pensar e o que se deve consumir, atendendo apenas a voracidade do mercado.

O sujeito da atualidade é marcado pelo isolamento, a impessoalidade, o individualismo e o consumismo frívolo, influenciado pela confusão entre qualidade de vida e quantidade de consumo. A quantidade é, pois, a medida da existência e da felicidade das pessoas.

O sociólogo brasileiro, radicado na França, Michael Lowy, ensina que o termo barbárie era utilizado durante a Antiguidade para tachar as nações não-gregas de “primitivas, incultas, atrasadas e violentas”. Hoje, pela explicação dicionarizada da palavra, se lê “ausência de civilização” e “crueldade de bárbaro”. E Lowy utiliza a expressão “barbárie civilizada” para representar os processos violentos ocorridos no findo século vinte.

A história do novo século começou a ser escrita. O futuro dirá sobre a quantidade de barbárie contida nos testemunhos de cultura.

Paulo Bogler é diretor da Guatá – Cultura em Movimento.

 
 
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