Campana lembra Eco em livro sobre Cabeza

Fábio Campana continua mergulhado nas histórias da sua infância, da juventude e dos tempos idos de uma saudosa Foz do Iguaçu e de uma Curitiba que não era tão pose assim. Desta vez foi mais longe com “O último dia de Cabeza de Vaca”.
A narrativa ficcional, de fôlego rápido, não perde a verossimilhança - como costumam dizer os mais letrados – com a trajetória de uma das personagens mais interessantes da nossa história.
De Don Alvar Ñunez Cabeza de Vaca se pode dizer de tudo. Era louco, visionário, aventureiro – o perfil comum nos navegadores do século XVI – mas o que difere dos outros normais é que este espanhol pode ter tido o melhor defeito de todos.
Revelou-se nos seus escritos e depoimentos, os erros que cometeu, a sua ingenuidade perante a corte da Espanha e a sua crença à Igreja Católica. Foi manipulado por todos e se tornou um verdadeiro looser, como se referem as patricinhas americanas aos perdedores de plantão.
Além desta condicionante da vida (destino?) – lembra muito, nós jornalistas, nas aventuras editorais – o que torna esta personagem fantástica,
Cabeza de Vaca tem uma ligação umbilical com a história do Mercosul.
Esteve em Santa Catarina, percorreu o Peabiru, passou por Foz do Iguaçu, se deslumbrou com as Cataratas do Iguaçu – a chamou de Saltos de Santa Maria – seguiu até Assunção como Adelantado, foi atrás da prata inca, foi governador da Província da Prata, queria ser vice-rei da Espanha e novamente se deu mal.
Escrever sobre uma persona desta magnitude requer um considerável lastro de informações e Fábio Campana, iguaçuense e neto de paraguaios, foi atrás dos seus antepassados para narrar os escritos de um certo padre Francisco Paniágua – fidelíssimo ‘escudeiro’ da moral cristã de Alvar Nuñes e de suas desventuras pelas terras guaranis.
“Os escritos de Paniágua foram encontrados no final do século XIX em coleção de documentos do Convento Menor que existiu nos arredores de San Lucas de Barrameda. Uma cópia foi remetida a Assunção para constar no arquivo público da cidade. Em 1953, foi feita pequena edição do texto de Paniágua”.
“Restaram seis exemplares dessa única edição. Um deles recebi das mãos do meu avô, Diego Vera, que o recebeu do seu sogro, meu bisavô, Vicente Ferreira. Graças a essa edição providencial foram salvas as memórias de Francisco Paniágua”.
Nos dois parágrafos acima, parte da introdução, Campana enreda de forma convincente de como construiu o último dia de Cabeza de Vaca. Lembra muito Umberto Eco em “O Nome da Rosa” – no qual o italiano para deitar falação na igreja/inquisição constrói uma história tão verossímil que você crê que, se não aconteceu, deveria ter acontecido daquela forma.
Há ainda dois confrontos que se mesclam na história. Um padre masoquista teme as luxúrias da carne, se assusta com a ‘vergonha’ das índias, não entende a cunhadagem dos guaranis que ‘conquista’ espanhóis, portugueses, franceses e outros ditos ocidentais.
“Cunhã significa mulher em guarani. Vem da junção de duas palavras. ‘Cu’ que significa língua. ‘Anha’ quer dizer diabo, é a expressão criada pelos índios para dizer mulher (...) Bem sabiam os guaranis do que tratavam. Por força de oferecimento de suas mulheres foi criada esta vila de Nossa Senhora de Assunção, nome que soa à blasfêmia, quando se sabe que aqui os espanhóis se entregaram aos pecados da carne de tal maneira que não há comparação na história e nos evangelhos para tanta luxúria e desregramentos”, era o padre Paniágua assustado com a proporção de 100 índias para cada espanhol.
Na outra ponta Campana (foto) descreve o mesmo padre escapista que nutre uma profunda admiração na conduta moral e disciplinar de Cabeza de Vaca. “O Adelantado, enviado ao rio do Prata para estabelecer a ordem e disciplina entre os espanhóis que lá se haviam corrompido, retornou prisioneiro acusado de 36 delitos”, lamenta Paniágua que percorreu todos os percalços de Cabeza de Vaca nas terras guaranis até acompanhá-lo, abandonado e resignado num leito de morte em qualquer mosteiro da Espanha.
A vida literalmente não é feita de heróis.
“O último dia de Cabeza de Vaca” é um livro rápido, de 131 páginas, entrecortado com capítulos curtos, alguns de uma página e outros até de poucas linhas. Um livro tão rápido, uma novela curta que perguntei por que tamanha pretensão? “Eu quero criar leitura, principalmente na moçada, quero que conheça a minha, a tua, a nossa história, quero que cada um faça sua própria história. É isso que eu quero”. Penitengziate Campana!
O último dia de cabeza, de Fábio Campana, Travessa dos Editores
Preço:
R$ 32,00
Pedidos: compras@travessadoseditores.com.br
Serviço:
Zé Beto Maciel é jornalista.
Texto publicado originalmente no portal H2Foz.