A Redescoberta de Foz do Iguaçu
Vozes tênues de um tempo distante, volta e meia, ecoam entre nossas vidas. E nos fazem, assim, curiosos com a veste da história.
Uma cidade revisitada é o que promete a exposição Retratos de Foz, organizada pela Associação Guatá, através de seu programa Memória e Identidade. O mosaico pode ser visitado virtualmente clicando aqui, ou, ainda, em painéis impressos que seguem pela cidade, por um roteiro itinerante.
Por meio de fotografias da Foz do Iguaçu das primeiras décadas do século vinte, vai-se puxando o fio da história, desnovelando a vida de nossos antepassados, revelando imagens, lembranças e identificações.
A exposição é composta por 50 fotos, em sépia, que estarão disponíveis no site em duas etapas. A primeira, de 25 fotos, que já está no ar desde ontem, conta um pouco o cotidiano da região. Uma caçada, um passeio, misturam-se à referências físicas do surgimento da cidade, como o primeiro açougue, a primeira rua traçados melhor elaborados, os militares chegando para ocupar o território.
A segunda parte, que entrará no ar na segunda quinzena, reúne fotos que retratam a partir da década de 40, especialmente. Sempre retratando o cotidiano, de maneira geral, com personagens comuns e anônimos, a exposição dispensa a importância principal aos trabalhadores e suas famílias, deixando um pouco o oficialismo de lado.
Dentro deste trabalho, destaca-se uma busca pela autoria das fotos, pois há uma necessidade de se resgatar os autores das respectivas criações. Através deste trabalho de pesquisa, desenvolvido pela Associação Guta, foi possível identificar pelo menos mais um fotógrafo fundamental do início do século: Hans Mart, antecessor de Harry Shinke. Este, o autor das fotos mais simbólicas dos primórdios do município iguaçuense.
O trabalho, modesto em sua essência, tem a intenção de divulgar mais a importância da memória como um componente do trabalho de historiografia da região, pela convicção que se tem de que o passado não está ligado mecanicamente à memória de determinado grupo social, mas, deve ser articulado com o tempo presente, da gente presente, para, então, constituir-se em memória.
É bom dizer que qualquer semelhança das imagens com fatos atuais, não terá sido mera coincidência. Os organizadores advertem, também, que exposição pode despertar em alguns, identidade, pertencimento e, até saudades. Pois, explica-se, memórias são sentimentos. Caóticas por princípio, flexionam, incompletas, as versões de uma realidade.
Numa cidade marcada pela transitoriedade e pela diversidade étnica, buscar saber de onde e como veio, porque veio e como viveram as pessoas que aqui se instalaram é buscar elementos para se entender a identidade do homem da fronteira. É buscar saber de nós mesmos e refletir sobre o futuro que queremos compartilhar.
Além da parceria com o Sindicato dos Jornalistas Profissionais do Paraná, a Associação Guatá também recebeu apoio cultural das seguintes empresas, preocupadas também com este registro: Chocolate Doce Confecções, Violet Claire, Kunda Livraria, Toner e Cia e Gráfica Rápida Iguassu.
A nonagenária Foz
O município de Foz do Iguaçu completa 92 anos, no dia 10 de junho. Teve sua formação iniciada precariamente em 1881, e somente a instalação da Colônia Militar, sete anos mais tarde, assegurou ao Brasil a posse definitiva destas terras, bem como, seu povoamento por habitantes brasileiros.
Após a segunda metade da década de 1960, com as inaugurações da Ponte Internacional da Amizade (entre Brasil e Paraguai) e da rodovia BR-277, ligando Foz do Iguaçu a Curitiba e ao litoral paranaense, a cidade teve o seu desenvolvimento acelerado, fortalecendo seu comércio, principalmente com os vizinhos paraguaios.
Contudo, os estudos sobre a colonização desta região, vinculam o seu desenvolvimento a três principais ciclos sócio-econômicos: de extração da madeira e erva-mate (1870-1970); da construção da Usina Hidrelétrica de Itaipu (1970-1980) e o do turismo de compras e da exportação, que predominou até meados da década de 1990, época em que a cidade chegou a receber, por ano, até quatro milhões de “compristas”.
O encerramento desse processo é atribuído à implantação do Mercado Comum do Sul e à inserção brasileira na economia globalizada, esta, marcada pelas políticas econômicas estruturais, também chamadas neoliberais.
O grande avanço demográfico do final dos anos 1980, provocado pela permanência na cidade de trabalhadores que atuaram na construção da usina e, de outros tantos, atraídos pelo aspecto empreendedor da obra, fez o número de iguaçuenses saltar de 30 mil, em 1970, para 130 mil, ao final da década de 1980. Este deslocamento humano tendo a cidade como destino, manteve a mesma intensidade nos anos que se passaram.
Poucos anos mais tarde, a mixórdia de mazelas provocadas pela integração da economia nacional ao mercado mundial, juntamente com os problemas de natureza geográfica (intensa movimentação de mão-de-obra, informalidade e precarização do trabalho, comércio ilegal, etc.), alterando de forma indelével a economia da região, marcando sua paisagem com enormes mazelas sociais.
Desde o princípio, a exuberância
Pesquisas arqueológicas realizadas pela Universidade Federal do Paraná no espaço brasileiro do reservatório de Itaipu, antes de sua formação, situaram em 6.000 a.C. os vestígios da mais remota presença humana na região; vários grupos humanos sucederam-se ao longo dos séculos.
Os últimos que precederam os europeus (espanhóis e portugueses), foram os índios. Em 1542, o espanhol Álvar Nuñes Cabeza de Vaca, chegou ao rio Iguaçu e por ele seguiu guiado por índios Caiaganges, atingindo as Cataratas, batizando o Paraguai, ficando o registro de que foi o "descobridor" das Cataratas.
Em 1881, Foz do Iguaçu recebeu seus dois primeiros habitantes, o brasileiro Pedro Martins da Silva e o espanhol Manuel Gonzáles. Pouco depois chegaram os irmãos Goycochéa, que começaram a explorar a erva-mate.
Oito anos após, foi fundada a colônia Militar na fronteira - marco do início da ocupação efetiva do lugar por brasileiros e do que viria a ser o município de Foz do Iguaçu.
A expedição do Engenheiro e Tenente José Joaquim Firmino chegou a Foz do Iguaçu em julho de 1889. Foi feito um levantamento da população e foram identificadas 324 pessoas, em sua maioria paraguaios e argentinos.
Mas havia também espanhóis e ingleses, já presentes na região e dedicados à extração da erva-mate e da madeira, exportadas via rio Paraná.
Em 22 de novembro do mesmo ano, o Tenente Antonio Batista da Costa Júnior e o Sargento José Maria de Brito fundaram a Colônia Militar, que tinha competência para distribuir terrenos a colonos interessados.
No ano de 1897 foi criada a Agência Fiscal, chefiada pelo Capitão Lindolfo Siqueira Bastos. Ele Registrou a existência de apenas 13 casas e alguns ranchos de palha.
Nos primeiros anos do século XX a população de Foz do Iguaçu chegou a aproximadamente 2.000 pessoas e o vilarejo dispunha de uma hospedaria, quatro mercearias, um rústico quartel militar, mesa de rendas e estação telegráfica, engenhos de açúcar e cachaça e uma agricultura de subsistência.
Em 1910 a Colônia Militar passou à condição de "Vila Iguassu", distrito do Município de Guarapuava. Dois anos depois, o Ministro da Guerra emancipou a Colônia tornando-a um povoamento civil entregue aos cuidados do governo do Paraná, que criou então a Coletoria Estadual da Vila.
Em 14 de março de 1914, pela Lei 1383, foi criado o Município de Vila Iguaçu, instalado efetivamente no dia 10 de junho do mesmo ano, com a posse do primeiro prefeito, Jorge Schimmelpfeng, e da primeira Câmara de Vereadores. O município passou a denominar-se "Foz do Iguaçu", em 1918.
A estrada que liga Foz do Iguaçu a Curitiba tomou sua primeira forma em 1920; era uma estrada precária, cheia de obstáculos. Na segunda metade da década de 50, iniciou-se o asfaltamento da estrada que cortaria o Paraná de leste a oeste, ligando Foz do Iguaçu a Paranaguá, sendo inaugurada em 1969.
A história do Parque Nacional começa no ano de 1916, com a passagem por Foz do Iguaçu de Alberto Santos Dumont, o "Pai da Aviação", - o legítimo "fundador".
Aquela área pertencia ao uruguaio Jesus Val. Santos Dumont intercedeu junto ao Presidente do Estado do Paraná, Sr Affonso Alves de Camargo, para que fosse desapropriada e tornada patrimônio público. No dia 28 de julho, através do decreto nº 63, foi declarada de utilidade pública com 1008 hectares e somente em 1939, por decreto do Presidente Getúlio Vargas, a área passou a ter 156.235,77 hectares.
Em 1994 os decretos nº 6506 de 17 de maio e de nº 6587 de 14 de junho consolidam e ampliam a área do Parque Nacional dando-lhes os limites propostos pelo chefe da seção de Parques Nacionais; hoje os limites atuais são 185.000 hectares.
(com informações extraídas do livro Foz do Iguaçu: Retratos)