A árvore
Roger Domenech Colacios
Novamente voltei meus olhos para o quadro a minha frente, dessa vez olhei fixamente, queria compreendê-lo melhor, na primeira impressão que tive não percebi nada de especial, um quadro simples, sem nenhuma genialidade aparente, dava a impressão de ser daqueles que as pessoas compram em papelarias do tipo “pinte os números”, uma criança poderia tê-lo feito. Minha decoradora disse que o pintor era artista de vanguarda, um dos grandes nomes do momento, ela dizia que era especial, que eu iria ficar horas e horas a contemplá-lo, também pudera, pelo preço que paguei tinha que valer aos olhos cada tonalidade de cores que preenchiam a tela. Era uma paisagem, provavelmente gerado dentro da mente do artista, que havia uma árvore ao centro, tomava conta da maior parte do espaço, ao fundo uma cadeia de montanhas suntuosas levava os olhos do espectador ao alto, para um céu chuvoso de uma cor acinzentada que predominava e contrastava com o chão ocre, dava a sensação de um paradoxo, de cima a chuva que abundava e logo abaixo um solo seco, completamente sem vida, além é claro da grande árvore ao centro, que apesar de frondosa, ainda não havia nenhum fruto, mas, suas folhas verdes pareciam vivas, conseguia senti-las balançarem com o vento, e gritarem na sensação de montanha-russa com o sobe e desce na copa da árvore, seus galhos serpentavam para todos os lados, uns subiam em direção as nuvens cinzentas, outros se enrolavam com outros numa orgia pecaminosa, alguns mais tímidos, ainda temiam em crescer, ou mesmo, em participar do bacanal e, miúdos faziam uma pequena coroa ao redor do tronco, podia ver também as raízes que numa agitação frenética procuravam o melhor chão para descansar de seu peso, e remexiam a terra para todos os lados. O vento, sem piedade, aspirava enchendo suas enormes bochechas e depois soprava a tempestade para cima das montanhas, que iam se encolhendo, olhando umas para outras procurando um abrigo e não desmoronarem como uma avalanche de lama. Estava ficando cada vez mais difícil para mim desviar os olhos do quadro, a cada segundo, uma magia me envolvia, parecia até que a realidade se invertera e eu era o quadro e a árvore me contemplava sob a chuva. Perdi a noção do tempo, mas depois de muito olhar, veio aquela sensação estranha quando as formas perde seus traços e viram borrões e as cores se misturam, quando normalmente novas figuras aparecem e dão novo significado a arte, porém, todo o quadro desapareceu, apenas a árvore continuou viva, exatamente no mesmo lugar, sem um borrão, uma deformação. Surpreso, e confesso confuso, percebi que as pés da árvore havia um grupo de pessoas, todas ajoelhadas, voltadas para a árvore, pareciam num transe, caminhei entre elas, tentei identificar seus rostos, borrados, desfigurados, apenas os olhos estavam se mexendo, num mesmo movimento, incessante, mas com certa leveza, iam da copa às raízes da árvore, dei uma volta completa em torno do tronco, e vi que um lugar me esperava, ainda confuso me ajoelhei e com as mãos em prece, segui o ritmo dos olhos dos outros, de cima para baixo, de cima para baixo....
Roger Domenech Colacios, é graduado em História pela UEL (Universidade Estadual de Londrina)
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