Coisas que só um artista pode saber...
De Ana Carolina Miskalo
Uma das coisas que só os artistas sabem é o quanto dói a barriga antes do espetáculo. Dói mais que no dia do primeiro beijo, da primeira vez em que se faz uma maldadezinha e fica com medo de alguém descobrir, dói mais que o medo da injeção. . . Cara o frio na barriga é cruel, dá um medão. O medo de desapontar as pessoas, de não se sair bem, de errar. . . São tantas incertezas que é melhor passar o texto atrás da coxia ou do pano que está estendido para ficarmos meio escondidinhos. Nossa sem contar que dá uma vontade lazarenta de fazer xixi, aí você tem que ir toda hora no banheiro nem que não seja pra fazer xixi, pois eu sei que é psicológico e tudo o que você precisa fazer é sentar no vaso e fazer o tal do xixi que não existe. Mas eu sei de casos piores que esse meu, então eu não me preocupo tanto.
É, de verdade não é fácil ser artista.
Puts, e na hora da apresentação você sente mil coisas ao mesmo tempo. . . medo, vontade de ousar, satisfação, calafrios, sua perna começa a tremer e você tem que acreditar que ela não ta tremendo pois tem que andar firme, mas daí a tremedeira vai se alastrando até que chega na sua garganta. Aí pega! Meu Deus se alguém perceber que seu nervosismo chegou até a garganta. . . lá se vai o espetáculo. As pessoas vão notar, algumas vão zoar (afinal, são humanos) e se você se perder fica com cara de tacho sem saber o que fazer. Mas aí surge uma luz do além da vida eterna e você se lembra de novo que é um artista. Então na hora em que você entra em cena com um hobbi preto alguém grita: “GOSTOSA!!”. Ao invés de se perder , você olha na direção do chamado, mesmo que não saiba quem foi da uma risadinha e faz um gesto pra depois. Ou quando você pega alguém desprevenido e lhe faz uma declaração de amor, ou solta um texto de revolta olhando fixadamente nos olhos de uma outra pessoa qualquer. Pois são nessas horas de contato com o público que a cena ganha mais uns pontinhos, pois a arte do teatro também consiste em improviso. E colocar o público dentro da peça, nem que seja com um simples olhar, é o máximo, você faz as pessoas prestarem atenção em você.
Sim, ser artista também tem aspectos negativos. O pior de tudo é o seguinte: você passa uns três/ quatro meses ensaiando uma peça que será apresentada em vinte/ vinte e cinco minutos. Aí é pra acabar.
A nossa sorte é que no teatro é muito fácil saber quando as pessoas curtiram sua apresentação. Quando você dá o último texto e a galera começa a aplaudir, você pensa valeu a pena deixar o namorado em casa alguns dias ou deixar de ter ido ao Paraguai fazer compras com sua tia avó de terceiro grau” (ah isso não conta você não ia nisso de qualquer jeito), mas enfim nessa hora você se cumprimenta e se diz: garota, valeu a pena! Valeu a pena cantar uma música que todos queriam tirar e que parece que só você gostava dela, valeu a pena rezar pra um tal de santo Antonio que trouxe um Antonio meu santo que dormiu no ponto, que valeu a pena ter deslizado o pé na bolinha branca da mesa de sinuca, valeu a pena zoar com aquela igreja que só está interessada no dinheiro do povão e para alcançar seu objetivo inventa até MSN de Deus, valeu a pena errar e tentar consertar seu erro sem que ninguém percebesse, valeu a pena ousar, olhar nos olhos, gritar, pedir silêncio, desafinar, valeu a pena não ter medo de enfrentar aquela tremedeira que acaba só quando acaba a peça. . . Cara nessa hora você ouve os aplausos e a pessoas elogiando a peça e você sente que tocou mesmo a galera, ainda mais uma galera que não está acostumada com isso e está aprendendo a valorizar a nossa cultura iguaçuense com Ç assim, nas ruas e nos bares da cidade, com interferências teatrais. Essas são coisas que só um artista pode saber. Saber como é bom você poder se transportar de uma pessoa para outra e ainda fazer os outros sentirem um pouco dessa emoção que se sente quando se assiste a uma peça de teatro. Mas como o artista não vive de si só, a galera que nos prestigia com sua presença, carinho e atenção também merece um PARABÉNS bem grandão do pessoal do teatro.
Ana Carolina é estudante de Letras em Foz do Iguaçu.