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Wilson Bueno na fronteira

Marcio Renato dos Santos

Você, leitor, leitora da revista Escrita , talvez seja o interlocutor, interlocutora ideal para este texto. Afinal, o assunto é nada mais nada menos que Wilson Bueno. Sim. Ele. O escritor paranaense (mundial) que ousa, sempre ousou, desbravar as fronteiras. Fronteiras? Exato. A literatura de Wilson Bueno transita por fronteiras. Não dá para dizer, com precisão, se o que Wilson Bueno escreve é prosa ou poesia. É prosa e é poesia. O genial escritor e jornalista João Antônio (1937-1996), ao se deparar com um livro de Wilson Bueno, afirmou que os textos eram (e ainda são) “autonomias”. “Nem apenas conto, nem apenas poesia, nem apenas crônica. Autonomias”. Eis uma mais do que feliz definição do que pode ser a literatura bueniana: autonomias.

Você, leitor, leitora da revista Escrita , não sei se conhece a produção de Wilson Bueno. Conhece? Caso sim, caso não, o fato é que ao longo dessas duas últimas décadas, Wilson Bueno se tornou um cultuado escritor, justamente por transitar nas fronteiras, por ousar. Cada livro bueniano se embrenha por um caminho. Novo. Inusitado. Cada livro também é uma autonomia. Seja o exagerado Mar paraguayo . Seja o genial Amar-te a ti nem sei se com carícias . Seja o incomparável Cachorros no céu . Seja o sublime Cristal . Seja o arrebatador Pequeno tratado de brinquedos . Mas, antes de qualquer observação, é preciso apontar, com pontaria certeira: tudo o que Wilson Bueno viria a fazer, que faz e que ainda vai fazer, já estava lá, no primeiro livro que publicou, no já longínquo ano de 1986. Bueno debutou literariamente com Bolero's Bar . Já leu Bolero's Bar ? O livro estava esgotado. Não leu? Pois 2007 é, então, a vez e a hora de você, que ainda não leu, ter o prazer e a oportunidade de conhecer essa obra incomum. A Travessa dos Editores acaba de publicar uma reedição de Bolero's Bar , acompanhada de um outro livro inédito: Diário vagau. E a outra boa notícia é que Bolero's Bar e Diário vagau circulam juntos, dentro de uma luxuosa caixa, já disponível nas livrarias por um inacreditável preço de R$ 35,00 (trinta e cinco reais por dois livros dentro de uma caixa).

A viagem sem volta

Bolero's Bar oferece textos saborosos, irresistíveis, sedutores enfim. Em alguns momentos, a voz narrativa se foca em detalhes periféricos (da periferia da cidade, e da periferia do senso comum), dando espessura para, por exemplo, vira-latas, cães e gatos. Em outros momentos, o olhar se volta para a possível Curitiba bueniana. “Minha Curitiba não se publica, antes se guarda — secreta facínora — no coração”. O olhar e o imaginário de Wilson Bueno também se deixam envolver por fantasmas, ecos de ausências, pinheiros, precipícios, lobisomens, anjos, demônios etc. E, em todos os textos, independente do mote, está lá, a pulsar, sem falha, o texto trabalhado, retrabalhado pelas mãos do artista obsessivo em busca da linguagem mais do que possível: “Estou sempre pensando que possa me amar, estou sempre assim pensando coisas improváveis ou absurdas como a de que sua brutalidade possa quebrar-se ao contato com a minha natureza esquiva, que lhe exibe, enganoso trunfo, um impecável atestado-de-antecedentes”.

Diário vagau , o livro que acompanha Bolero's Bar , traz textos que conversam com a proposta de Bolero's . A mesma intensidade literária. A mesma beleza. A mesma imersão no fronteiriço território, onde não se sabe se a prosa é prosa ou se a prosa é poesia ou ainda se a poesia é prosa. Seja ao brincar com as normas do idioma, seja ao reagir diante (por exemplo) de um ipê amarelo, seja ao conversar com o amigo João Antônio, seja ao flertar com o subúrbio, com Deus ou com um dia da semana, seja ao chorar a perda de um amigo, seja ao sorrir diante de um cão ou de um gato, há sempre essa transcendência, essa espécie de magia (bruxaria?) que capta, seqüestra, abduz o leitor. E, caro leitor, cara leitora, uma vez em contato com a experiência literária de Wilson Bueno, você nunca mais será o mesmo, nunca mais será a mesma. Ler Wilson Bueno é embarcar rumo ao desconhecido para regressar transformado, transformada. Irremediavelmente. Transpirando poesia. Sentindo prosa. Vivo. Viva. De volta pra vida.

 

Marcio Renato dos Santos é jornalista, mestre em Estudos Literários pela Universidade Federal do Paraná (UFPR). Produz conteúdo jornalístico para Idéias , revista quinzenal da Travessa dos Editores.

 

 
 

 

 
 
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