O padre
Minha mãe queria-me padre.
Aos seis anos
era do meu guarda-roupa
uma batina preta e outra branca.
Minha mãe pedia que eu as vestisse
e olhava-me com os olhos encantados.
Pareciam-me olhos de passarinhos
cuidando de seus filhotinhos no ninho.
Minhas mãos pequenas
mal podiam abotoar
os quinze botões da preta
e os vinte e dois da branca.
Os meus sapatos, todos,
eram pretos e lustrosos
como cabe aos sapatos
de um bom padre.
Não havia dia
sem que me levasse à igreja.
Ensinava-me as rezas, as ladainhas, os cânticos em latim
e os momentos em que eu poderia me ajoelhar.
Os meninos da minha infância
chamavam-me de padre.
Oi padre, oi padre, oi padre.
Aquilo que para uns era chacota,
era para mim, profundo orgulho.
Minha mãe queria-me padre.
Sempre me quis padre.
Dizia-me que as minhas mãos eram de padre.
No dia em que guardaram seu corpo
houve espanto, grito, perplexidade, oh! oh! oh!
quando surgi vestindo, desabotoadas,
uma batina preta e outra branca.
(*) Celso Alencar é escritor em São Paulo, SP. O poema "O padre" faz parte da publicação "Poemas Perversos"
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