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Poesia Palestina de Combate

O estrangeiro
(*) Hayil'Assaqilah


Não se apoderem de meus olhos
Sou o estrangeiro
em busca de uma pátria
meu coração se esmigalhou
sobre as montanhas da neve, do sangue e da geada
caminhei com as crianças
me abandonaram
na noite da fome, do sangue e da geada
levantaram sobre minhas costas
as tábuas de meu ataúde

Não me exterminem
sou o estrangeiro
em busca de uma pátria...

que erro cometeu meu povo
para que viva hoje
numa terra em ruínas
que erro cometeu o pássaro
para que o joguem de um bosque a outro
que erro cometeu meu coração
para que derramem sobre ele
a catástrofe e tanta dor.


(*) Hayil'Assaqilah, poeta palestino.


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O caminho das dores
Poema inspirado em uma visita à velha Jerusalém

(*) Mu'Ammar Hammuda Az-zaghbi

A terra
dos braseiros em chamas
o caminho calçado de punhais
o itinerário da provação e das dores
se prolonga, sem fim
as pedras da rua me falam
da provação
daquele que levou a coroa de espinhos
seu sangue que cheira corre, corre
e o sol acelera a sangria
a rua... ondas de gargantas
abrasadas pelo chicote gritam:
"Senhor... resiste ao crucifixo
ou roga a teu deus todo poderoso".

E a planície devolve os ecos
que ressoam através dos séculos
"Ó senhor... resite à provação..."

O Senhor se cansou de seu crucifixo
Ó verdugos
Pilatos não é eterno
os dias se encarregarão dele
o itinerário da provação das dores
guiará as massas humanas aos lugares de crucificação
nós continuaremos caminhando sem cessar
e em nossa marcha construiermos a paz
o hino da dignidade nos envolve
o chamado da justiça nos adverte
semeia hoje, colherás amanhã
colheremos as sementes com nossas mãos
felicidade - paz - dignidade.

(*) Poeta Palestino


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Esperança
(*) Mahmud Darwich

Enquanto em vossos pratos
haja um pouco de mel
espantem as moscas dos pratos
a fim de conservar o mel.
Enquanto hajam cachos
de uva nos vinhedos,
expulsem as raposas,
oh, guardiões de vinhedos,
a fim de que amadureça a uva.
Enquanto fique em suas casas uma toalha... e uma porta, protejam do vento os pequenos
a fim de que os filhos durmam.
Vento...frio... fechem as portas
enquanto em suas artérias haja sangue.
Não o delapidem
pois em vocês há recém nascidos...
enquanto haja fogo na lareira
e café... e uma braçada de lenha.


Carteira de Identidade
(*) Mahmud Darwich

Registra-me
sou árabe
o número de minha identidade é cinquenta mil
tenho oito filhos
e o nono... virá logo depois do verâo
vais te irritar por acaso?

registra-me
sou árabe
trabalho com meus companheiros de luta
em uma pedreira
tenho oito filhos
arranco das pedras
o pão, as roupas, os cadernos
e não venho mendigar em tua porta
e não me dobro
diante das lajes de teu umbral
vais te irritar por acaso?

registra-me
sou árabe
meu nome é muito comum
e sou paciente
em um país que ferve de cólera
minhas raízes...
fixadas antes do nascimento dos tempos
antes da eclosão dos séculos
antes dos ciprestes e oliveiras
antes do crescimento vegetal
meu pai... da família do arado
e não dos senhores do Nujub
e meu avô era camponês
sem árvore genealógica
minha casa
uma cabana de guarda
de canas e ramagens
satisfeito com minha condição
meu nome é muito comum
registra-me
sou árabe
cabelos...negros
olhos...castanhos
sinais particulares
um kuffah e uma faixa na cabeça
as palmas ásperas como rochas
arranharam as mãos que estreitam
e amoi acima de tudo
o azeite de oliva e o tomilho

(...)

 

Desafio
(*) Mahmud Darwich

Atem-me
proibam-me os livros
os cigarros
obstruam minha boca com areia
a poesia é sangue
a água dos olhos
se imprime com as unhas
as órbitas
as adagas
Clamarei seu nome
no cárcere
no banho
na pedreira
sob o látego
a violência das correntes
Um milhão de pássaros
sobre os ramos de meu coração
inventam o hino combatente

(*) Mahmud Darwich, poeta palestino.

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Basta-me permanecer em seu regaço
(*) Fadwa Tuqan

Basta-me morrer em meu país
aí ser enterrada
dissolver-me e aí reduzir-me a nada
ressuscitar erva em sua terra
ressuscitar flor
que uma criança crescida em meu país arrancará
basta-me estar no regaço de minha pátria.

terra
........erva
.....................flor


(*) Fadwa Tuqan, poetisa palestina.

Os poemas desta página foram extraídos do livro "Poesia Palestina de Combate", publicado em 1981, pela editora Achiamé, no Rio de Janeiro. A tradução dos originais árabes para o português são de Jaime Cardoso e José Carlos Gondim.


 

 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


 
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