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Hélia Correia

GUEVARA

Levaremos ainda as nossas roupas
vossos idílios sobre os suíços
vossos pães
vossas sujas refeições
pelas clareiras,
vossas tatuagens.

Levaremos as vossas agonias.
Coisas. Vestígios ácidos da dor.
Estilhaços. Matéria.
Vossas fontes sugadas e musgosas.
Vossas hostes elementares.
O encolher dos dedos
sob as mantas nas ciladas.

Vigílias. Levaremos
vosso cheiro à folhagens e a verão. 

Levaremos na pele vossas cidades
em sua inexistência.
Vosso rijo manobrar dos fuzis.
Recondução da história.
O novo, o limpo
acumular dos corpos para o cio.  

Levaremos os climas. Mais cerrados,
no lugar da memória, avançaremos
com vossos restos de calcinação.
Avançaremos todos com os ombros
quase amorosamente protegidos
por ombros paralelos.
Seguiremos e de ecos indignados
seguiremos por onde nos chamastes.

E ainda traremos certas águas
tranqüilamente sobre as tardes vilas
onde o ciclo dos sangues se fundia
das raparigas nunca virgens, e outro,
o fértil, sobretudo, em vossas chagas.  

Hélia Correia, in “10 Poemas para Che Guevara”
(Ed. O Oiro do Dia, 1.980, Porto, Portugal)


   
 
 
 
 
 
     
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