Mitologia agora você vai conhecer o amor
fogo do corpo que queima
e difunde o espírito
mil e um graus de calor
invadindo os sentidos
arte e orgulho de um deus
insurgente e desconhecido
agora você vai conhecer o amor
o coração como as velas de um barco
na sua Odisséia de Ulisses
ilha incendiária e latente
sexo ardente e enfurecido
febre cujo delírio provoca
palavras desconexas na cama
e a princesa etrusca apenas sorri
prazerosa, penetrável e profana
Poema Frágil
quero experimentar no seu corpo
todos os lugares do mundo
tem sido assim quando não sei
aonde você está
e pergunto se este desejo intangível
frágil como pele de maçã
é suficiente para que me sinta ainda
como a mulher dos sonhos
se for para me afastar da realidade
ou decidir se me devolve à bruma
serei, antes de ser mulher,
uma tênue presença perdida
ou um achado que escapa
entre seus dedos
apenas a dois passos da felicidade
Prazer
ainda que
o que me instigue o corpo
seja breve
seja novo
será sempre
a lição sem fim
de redescobrir paraísos
perdidos
dentro de mim
A flor do segredo
Aquilo que não se pode dizer
A não ser de ser para ser
Entre as páginas
Entre os livros
Nas cartas secretíssimas
Como diálogos de prazer proibido
Como as vestes que caem
No quarto
Na cama
No gozo
Entre os lábios da mulher
Que adormece apaixonada
Como a flor rosa-carnal
Que amanhece entre os liquens
Como se fosse a bem-amada
Rosa da Pérsia
toda mulher é ardilosa
e submissa
toda mulher é Sherazade
mestiça.
seda, pérola do oriente
âmbar, fantasia no ocidente
mil e uma noites
nossa história
e um leito de mentira
na memória
Sabedoria quase chinesa
se alguém não te alimenta
inventa
uma manhã de sol
fruta fresca
chá de hortelã
pra despertar a alma
com calma
porque o dia apenas começa
e amor não combina com pressa
O desencanto de Ana
um dia amei um homem
com meus desatinos
e acho que ele também me amou
mas o amor não tem dono
meu bem, não tem dono
e na contrapartida
fenece como botão
que não vinga
girassol que não gira
solidão que nos acompanha
dias, meses, anos
até perder-se nos confins do tempo
como um espectro de paixão
que não volta, meu amor, não volta
no meu pensamento
ficaram as pétalas que se abriram
lavas, lírios, luas
e a negligência do abraço
de quem não as recolheu
Profecia
quando nasci
o anjo Gabriel
veio anunciar que um dia
eu daria à solidão
do seu desejo
o cálice cálido de um beijo
derramando em sua boca
o mel pagão da poesia
Suíte
havia o desenho dos corpos e o desenho das pontes
um sobre o outro
silhuetas queimando na tarde incipiente
estivemos lá
num quarto abafado
sob um céu comovente
na hora em que os anjos
realizam o milagre da carne, sem pecado
minha boca movia-se num beijo
deixava-me ficar assim
com a língua em ondulações de serpente
carícias sobre a nudez
reentrâncias delicadas
a flor da minha pele no Saara
o calor da vida era quase insuportável
à memória desta cena
acendo candelabros de lembrança luminosa
nada escapa aos meus sentidos
muito tempo depois
quando o amor é vago
um quasar distante
você ainda me visita
com a natureza das chamas
elas fingem que se apagam
e propagam faíscas
começando outra vez o crepitar do fogo
corpo sob o corpo
miragem com que me iludo no sótão
procurando fósforos
a cada dia que nasce
nas paisagens nômades
(*) Célia Musilli é jornalista em Londrina, Paraná.
Todos os poemas reproduzidos nesta página, com exceção de "Suíte" (reproduzido do blog da autora), fazem parte do livro "Sensível Desafio", lançado em 2006, pela Editora Atrito Art. Nele, Célia Musilli reuniu poemas publicados anteriormente no blog www.sensivelldesafio.zip.net, editado pela jornalista desde 2004.
O livro traz poesias em duas partes: "Poemas Sensuais" e "Poemas Transversais" e também uma terceira parte de prosa poética nominada "Cartas Sem Endereço".
Ele pode ser adquirido através de pedidos para o e-mail: celiamusilli@terra.com.br . Preço de capa, R$ 25,00.
Célia projeta um novo livro para 2008, aproveitando mais uma vez a produção do blog e destacando a prosa poética.
Para acessar o blog "sensivelldesafio", e conhecer mais textos de Célia Musilli, clique aqui.
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