POESIA SEMPRE ___________________________________________________
Negendre Arbo
Mea Culpa
Eu coleciono pecados e como um velho avarento
à noite manuseio a coleção sem arrependimento...
Cantando exorcisamos este silencio atroz, bocas sem vozes
a noite é o púlpito ideal para as paixões vorazes
que nos fazem cantar, orar e ganir poetas lobos
que toquem os tambores no púlpito das paixões noturnas,
desperta, povo!!!
porque vcs não falam?
a noite pede poemas... violões, tambores
o silêncio é a não vibração,
é como apagar as luzes,
o silêncio são garrafas vazias de licores
o silencio é a solidão completa da falta de interlocutores
e essa janela negra é um espaço tão vazio
que quando ninguém fala sinto frio
na ausência de vozes pra suportar a noite
...tantas janelas, tantos anseios escondidos nelas....
... que a noite lhes seja leve
______________________________________________
******************
quem manda os sinais?
quem se importa comigo?
quem traça na terra os caminhos pra mim?
quem disse ao luar -Cuide dele?
quem disse ao mar pra me levar de volta pra casa no fim?
______________________________________________
Carnal
Amarelas areias de praias perdidas
Amarelo pó de todos os caminhos que não percorri
Amarela luz difusa das manhãs serenas
Amarelo o poema
A estática cena
Do beijo anêmico e insano
que meus lábios pálidos roubarão de ti
Amarela a obcena geografia do teu corpo
Tuas curvas, teus vales
que minhas mãos trêmulas
irão percorrer a procura de um lar
Teu corpo é um pomar
E comerei os frutos
E sugarei os sumos
Carinhoso e bruto
Morderei a tua carne
E me alimentarei de ti
Blasfema deusa loira de todos os feitiços
Estenderei tua pele para secar ao sol do último verão
Sob o céu amarelo que o diabo pintou para o dia do juízo.
Evoco a espada de prata do raio de lua,
o escudo encantado da neblina escura
dos invernos gelados que deixei para trás
e um cavalo engendrado nas febres noturnas
do leito suado do soldado louco que não luta mais
A mim magnetismo das marés
A mim tempestades do oriente
Já ouço o uivo agônico dos vendavais
e o rufar tenebroso do tambor das avalanches
Pelo nome secreto que nunca foi dito
pelo fogo onde joguei meu coração pulsante
exijo a presença de vocês, proscritos
guardiões sagrados e profanos de meu inconsciente
À batalha horda maltrapilha de poetas e assassinos
a cobrir de rubro sangue estas cidades cinza
sob a bandeira escarlate da paixão ardente
da poesia ácida, cruel, demente e suja
das secreções odiosas da devassidão das musas
corações bacantes fornicando ao sol poente
Em frente batalhões andrajosos do delírio
Aos céus hostes aladas de meus torpes anseios
Não me tragam a verdade, a luz ou o saber tardio
troco com prazer este tesouro casto e frio
pela sensação efêmera e caótica do espasmo
o êxtase, o torpor, o lânguido arrepio
que sempre vem a mim depois do orgasmo
Canção fecundada nas artes húmidas do amor profano
escrita nos ossos calcinados de meu suporte humano
triturada em meu coração, alquímico cadinho
banhada em lágrimas de amor, em fel e vinho
Fique ecoando como minha última risada cínica
deito as armas ao chão, fecho o livro, dispo a túnica
Sou uma legião e me basto
Saiam do meu caminho.
_________________________________________
*********
Pétalas de luz, gestos de adeus da luz. A luz foi embora,
partiu abandonando o mundo.
O luar pinta de prata o mar, as pedras da calçada,
a janela do bar e a madeira descascada de cantar dos violões noturnos.
O luar desenha ilhas nos olhos claros da menina
e a noite rebelde, pagã, espalha seus mistérios pelas ruas.
A noite é a mãe, a esposa, a irmã, a incestuosa filha dos bebados, dos loucos, dos viajantes da lua, dos habitantes famintos de amor do submundo, da mulher perdida, do adorador da lua, do poeta vagabundo, e do filosofo de bar que desertou da vida.
O luar desenha ilhas e o vento noturno traz recordações
do mar no ventre enluarado das canções antigas.
Pétalas de luz, gestos de adeus da luz.
O luar pinta de prata o mar na madeira descascada
dos violões tristonhos e a noite é uma louca grávida de sonhos
________________________________________
Canções da Janela Negra
Negendre diz: Um chat silencioso...
Um espaço em branco com possiveis, mas não confirmados leitores
escrever nele é diferente do papel.
Pq o papel é uma janela fechada até q vc distribua cópias
ou jogue o poema na rua.
E por ser diferente o veiculo,
cantar, escrever ou dançar versos com o rubro coraçao na mão estendida pra vcs,
pingando sangue nos assépticos e virtuais corredores do server da Ning, produz um tipo distinto de poema/discurso
e os pruridos q o poeta sente são distintos tbm.
Pq escrever aqui é escrever impune.
Não existe pecado na sociedade virtual,
exceto talvez o da mediocridade.
Nenhum teatro está vazio, pois há sempre os fantasmas das plateias antigas
e fantasmas somos todos enquanto vestimos verdadeiros ou envernizados avatares.
Sendo assim, não haverão aplausos.
Mas fica a prazerosa sensaçao de saber que nao fiquei calado
e que o espaço de um chat vazio e silencioso deixou de ser assim porque cantei,
com o rubro coraçao em minha mão estendida para voces,
pingando sangue nesses corredores da Ning nesta tarde.