As coisas
A bengala, as moedas, o chaveiro,
A dócil fechadura, as tardias
Notas que não lerão os poucos dias
Que me restam, os naipes e o tabuleiro,
Um livro e em suas páginas a ofendida
Violeta, monumento de uma tarde,
De certo inesquecível e já esquecida,
O rubro espelho ocidental em que arde
Uma ilusória aurora. Quantas coisas,
Limas, umbrais, atlas e taças, cravos,
Nos servem como tácitos escravos,
Cegas e estranhamente sigilosas!
Durarão muito além de nosso olvido:
E nunca saberão que havemos ido.
Jorge Luis Borges (Tradução: Ferreira Gullar)
Juan López e John Ward (*)
Tocou-lhes por azar uma época estranha.
O planeta havia sido dividido em distintos países, cada um dotado de lealdades,
De queridas memórias, de um passado sem dúvida heróico, de direitos, de agravos,
de uma mitologia singular, de próceres de bronze, de aniversários, de demagogos e de símbolos.
Essa divisão, cara aos cartógrafos, propiciava guerras.
Lopes nascera na cidade junto ao rio imóvel; Ward, nos arredores da cidade por onde andou father Brown. Havia estudado castelhano para ler o Dom Quixote.
O outro professava a paixão por Conrad, revelada em uma aula da rua Viamonte.
Teriam sido amigos, mas só se viram uma vez, cara a cara, em umas ilhas por demais famosas, e cada um dos dois foi Caim, e cada um, Abel.
Foram enterrados juntos. A neve e a corrupção os conhecem.
O caso que lhes conto ocorreu num tempo que não podemos entender...
(*) Poema de Jorge Luiz Borges, escrito durante a Guerra das Malvinas, entre Argentina e Inglaterra.
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