POESIA SEMPRE ___________________________________________________
Lupe Cotrim
“João" (fragmentos)
I.
O que é nosso, João,
entre o teu e o meu
o que separa em posse
a nossa solidão?
Não sei. Não sei
o que era de mim
no que te encontrei.
Hesito entre o inscrito
e o que me vem às mãos:
tenho pouco do perto.
Antes creio
no que ainda terei
porque desperto.
Vês o mundo, João,
como quem não sabe
ou enxerga em vão.
É um ver qualquer,
o teu, sem detalhe ou magia,
e devo a teu olhar
o segredo ondulado
onde o mundo principia.
II.
Há países mordidos
e uma língua de metal
astuta e imprevisível
dilacerando o homem
em sua própria criança.
O que faremos, João?
[...]
Enquanto penso, existes
com fomes divergentes.
Franzimos as sobrancelhas
para o que alguns fazem
de nossa bandeira.
Apesar, João:
III.
Enquanto, João,
alegria eu quero
apesar da guerra.
Para nós e em volta
medula de resistência
em nossa presença.
Ladeando a fome,
ladeando a morte
de Biafra às vizinhanças
consumir alegria
de manter-se vivo
apesar e contra isso.
Se o gesto é escrito
e perduras analfabeto,
se o pão é farto
e teu estômago descalço
se alguns vão à lua
no esplendor da técnica
e prossegue a miséria
em sua chaga satélite,
alegria, João.
Por um outro dia
necessitamos fazer parte
do que nele principia.
[...]
Alegria pela manhã
que contra hoje vai chegar,
sub-versiva, sub-vertida
sub-metida.
Alegria de nós, em nosso intento:
alegria como é viva
uma pessoa viva.