COMENTÁRIO
"Invisibile"
Por Marcio Medeiros (*)

Falar da exposição Invisibile é fácil e, ao mesmo tempo, muito difícil. Tão fácil quanto se espelhar no universo destas três artistas: Letícia, Lúcia e Maria. Tão difícil quanto se reconhecer parte desse mesmo universo. “O mundo é grande, mas, em nós, é profundo como o mar”, diz Rilke, o poeta. Elas nos levam a mergulhar nesse oceano, oceano que faz parte de nossa própria carne e de nosso espírito. Elas sabem que nos tocam em valores muito íntimos.
Invisibile habita a imensidão das ondas: “Dios Padre sus miles de mundos mece sin ruido. Sintiendo su mano en la sombra mezo a mi niño” (Gabriela Mistral). Ondas tranqüilas, surpreendidas na humildade do gesto de ninar o filho, operadoras de imensidão.
Invisibile faz crescer o amor dentro de nós, crescer o verão que se institui como uma emergência do ser, como um valor que nos domina, malgrado o estado subalterno de nossos espíritos frente a essas realidades.
Parece que a tarefa dessas três mulheres, três amigas, é realmente nos revelar o invisível da alma feminina: “A dor e a alegria de ser mulher”.
Lúcia (do latim lux, luz), Letícia (também do latim laetitia, alegria) e esta chinesa/brasileira que nasceu Miu Kuen (beleza e delicadeza em cantonês, sua língua mãe) e que, chegando ao Brasil, assumiu o nome Maria, emblemático na cultura ocidental.
Lúcia torna explícito para nós aquilo que está contido na grandeza do fazer doméstico cotidiano das mulheres. Ela nos revela quanto amor, quanto zelo e quanto carinho estão contidos em cada nó de uma renda, em cada pão. Pão que se transfigura em toalha a cobrir a mesa em que se alimenta a família. Bilros que se transformam em luz a revelar a delicadeza da alma das mulheres rendeiras. Toalha de crochê da avó tornando-se bordado de luz a refletir-se no chão.
Invisibile!?
Que grito lancinante é este, Letícia, contido nestas gargantas, espelhado nestes olhares perdidos entre cabelos hirsutos e desgrenhados?
Que dor é esta, Maria, de milhares e milhares de meninas cujo único crime é serem mulheres, mortas antes de nascer?
“Oh, vos omnes qui transietis in via, venite et videte si est dolor sicut dolor meus”, cântico medieval desta outra Maria, a Madalena, que diz: “Oh, vós todos que passais pela estrada, vinde e vede se há dor maior que a minha”. Dor ainda mais terrível que a deformação forçada dos pés das avós que Maria presenciou quando menina, para impedir que as mulheres chinesas fugissem da prisão do lar. “[...] Si est dolor sicut dolor meus.”
Invisibile rasga nossos olhos, grita em nossos ouvidos, dilacera nossa pele.
As obras dessas três mulheres artistas são, antes de tudo, realidades humanas. Não basta buscar formas de explicitá-las. É preciso vivenciá-las em sua imensidade poética.
Só nos resta não sairmos indiferentes.
Letícia, Lúcia e Maria, beijo-lhes as mãos!
(*) Marcio Medeiros é
artista plástico em Curitiba.
Clique aqui e conheça imagens da exposição "Invisible"
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Aqui, ensaio de Letícia Marquez sobre sua arte
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