DEPOIMENTO
Eu fui ao Café na Casa do Teatro
(*) Silvio Campana
Escrevo lembrando o sábado, 19 de julho. Escrevo para a emoção daquele sábado. Poderia usar adjetivos aos montes. Mas gostaria de simples, rotineiro e único, para agora e daqui para sempre. Uma ilha meio desengonçada no centro da velha Foz do Iguaçu, transgredindo a cidade dos esquecimentos.
A cidade daquela tacanha e cruel idéia de que pouco vale o que é subjetivo viveu outro revés com mais um Café com Teatro, o encontro mensal de arteiros da Casa do Teatro.
Encontro com o jeito dos artistas, sem a burocracia costumeira das oficialidades.
Artistas, anônimos, todos os que foram. Anjos tortos, gente que vive a arte. Gente que vive da arte. Gente que fez da arte o jeito de se aproximar. Estavam todos lá, no palco e no público. Palco-público. Às centenas, de punhado em punhado, de tribo em tribo, cada qual no horário que podia. E no horário do outro quando podia.
Gente que é assim, às pencas, formiga e cigarra. Formiga que canta, cigarra que canta. Fauna que carrega pedra e trabalha, muito. E que canta enquanto trabalha. Sem patrões na arte de fazer e identificar culturas.
Quem foi, gostou de estar no meio de danças, musicalidade, teatro, camaradagem. E, claro, no meio de um gosto temperado pelo anonimato de figuras e seus pequenos truques que fizeram a mágica de termos iluminação, som e boa comidinha num bar literário.
Bagunça organizada. Bonita bagunça, colorida, autêntica, como o pessoal do reizado do Morumbi. Sem tempo pra acabar, como a simpatia da moçada do artesanato e do brechó. Gente que aplica em sua moda a moda que não passa nunca, que é a da gentileza.
Crianças e velhos, madurões e adolescentes, todos estavam lá. Joviais, embarcados nas viagens de uma apresentação de dança, de um conto na roda de leitura. Ou na alegria do sorteio de haikais e nos desenhos pendurados no muro. Galeria improvisada, mas sensibilidade desde sempre. Sorrisos como o poema coletivo num rolo de papel que foi abrindo em véu até a noite. Doze horas, do sol até a lua cheia. Lua que tragou os últimos acordes de um mês todo de preparação.
Avoé às Sabrinas, às Maras, às Marias, às Ednéias, às Rosângelas, aos Michaeis, aos Betos, Marcos, Fumês, Júlios, Josés e Joões. Beijos aos que me proporcionaram emoção num cantinho de minha cidade num hiato de meu tempo também.
Veja aqui mais fotos do Café com Teatro, do dia 19 de julho.
(*) Silvio Campana é jornalista em Foz do Iguaçu.
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