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O Paraná é negro

  (*) Zé Beto Maciel

O Paraná não é só polaco de Curitiba, gaúcho (italianos e alemães) do Oeste e Sudoeste, japonês e paulista do Norte de Londrina e Maringá e muito menos paraguaio, árabe, argentino ou coreano da fronteira de Foz do Iguaçu. Assim como os índios que sumiram do mapa a partir dos anos 50/60 e que ainda lutam por um pedaço de terra, o Paraná se descobriu negro em pleno século XXI.

Nada menos que 86 comunidades negras, chamadas de quilombolas porque se originam dos antigos quilombos – redutos de escravos foragidos e que ao longo dos anos se tornaram locais de convivências de seus descendentes - foram identificadas no Paraná depois que a Secretaria Estadual de Educação realizou em 2004 um primeiro encontro de educadores negros.

“Descobrimos a existência de pelo menos 12 comunidades negras no Paraná. Logo, eram 22 e, agora, temos o indicativo de 86 comunidades”, diz o historiador Glauco Souza Lobo que junto com a professora Clemilda Santiago Neto formaram o Grupo de Trabalho Clóvis Moura - responsável pelo diagnóstico social das comunidades.

O grupo já visitou até agora as comunidades quilombolas das cidades de Castro (86 famílias e 381 remanescentes), Doutor Ulysses (31 famílias e 123 remanescentes), Adrianópolis (167 famílias), Candói (49 famílias e 216 remanescentes), Campo Largo (37 e 178), Curiúva (66 e 194), Tibagi (quatro famílias), Lapa (199 famílias), Guarapuava (50 e 174) e Cantagalo (seis famílias e 21 remanescentes). Existem comunidades quilombolas a serem visitadas nas cidades de Palmeira, Ivaí, Turvo e Jaguariaíva.

Inclusão social - A partir dos levantamentos, o grupo se articulou com os governos estadual e federal para reconhecer os direitos básicos (água, luz, moradia, educação) das comunidades e incluí-las em programas sociais. Das 50 comunidades visitadas, 14 já são reconhecidas pelo governo federal e pela Fundação Quilombo dos Palmares como quilombolas.

“Outras 20 comunidades estão com o processo de reconhecimento em andamento. Mas, antes mesmo deste reconhecimento, essas comunidades já estão sendo atendidas pelo Governo do Estado, através de várias secretarias e órgãos públicos”, aponta Souza Lobo.

O apoio estadual veio através do programa “Revelando um Paraná Quilombola”. “O Paraná procura apagar a nódoa que oculta as comunidades quilombolas historicamente escondidas e não reconhecidas por todos os governos anteriores. O governo está ouvindo os quilombolas, o que é inédito na história do país, para que a partir de agora essas comunidades possam se desenvolver com mais segurança, com seus direitos de cidadania garantidos”, reconhece Glauco Souza Lobo.

Terra e preservação - O primeiro trabalho, como sempre, é o reconhecimento da propriedade que historicamente ocupam. A Secretaria de Ensino Superior firmará parceria com a Universidade Federal do Paraná para apressar a realização de laudos antropológicos, sem os quais será impossível de conseguir junto ao Incra a demarcação dessas terras.

O IAP (Instituto Ambiental do Paraná) vai trabalhar junto aos quilombolas - cujas áreas verdes em torno são na maioria das vezes preservadas - para mantê-las nessa condição sem prejudicar o sustento das famílias.

A Secretaria da Saúde pretende, em parceria com as prefeituras, levar atendimento médico até essas comunidades. “Atualmente, existem casos de pessoas negras que chegam a percorrer 90 quilômetros para marcar uma consulta”, revelou Glauco Lobo.

A Secretaria da Cultura, através do Projeto Paraná da Gente, prepara um livro sobre os aspectos culturais dos negros. O programa conta ainda com a participação da Secretaria de Justiça, Cohapar, Incra/MDA, Copel, Sanepar, Secretaria de Transportes/DER, Provopar, Delegacia Regional do Trabalho, Secretaria do Trabalho e Comando Geral da PMPR.

Em tempo - O Quilombo João Sura, localizado em Adrianópolis, completou 200 anos de existência e, ao longo de sua história, conseguiu manter sua cultura com muita luta. “Portanto, é fundamental que eles se valorizem, entendam o valor de sua tradição. A civilização ocidental tenta desvalorizar essa sabedoria, mas eles conseguem mantê-la, tanto através da arquitetura, culinária, danças, músicas, religião, quanto nas tarefas diárias”, referenda Glauco Lobo.

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