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"Che Guevara veio à Foz

(*)Adelmo Müller

 

Armas vindas de Cuba e destinadas a Che Guevara passaram pelo Paraguai e entraram no Brasil através de Foz do Iguaçu.

Eram alguns fuzis de alta potência, que os irmãos Carlos e Paulo Telles Franck colocaram em território brasileiro, atravessando-os um a um num ponto estreito e então de fortes corredeiras do rio Paraná, na hoje alagada reserva indígena dos Avás-Guaranis em Ocoí, então município de São Miguel do Iguaçu, agora município de Itaipulândia e submerso pelo reservatório binacional de Itaipu.

Uma corda era amarrada de um lado a outro do “paranazão” no período noturno, em forma de corrimão com declive, para não se correr o risco de perder nenhuma arma., as quais, após, com o Jeep da Receita Federal, forma transportadas até o “aparelho” do movimento guerrilheiro do então chefe de Rendas do Brasil em Foz do Iguaçu, José Dionísio Canzi, que ainda reside onde era o esconderijo, na Rodovia das Cataratas, próximo o portão de acesso ao Parque/Cataratas do Iguaçu.

A maior parte destes fuzis foram parar no “Bico do Papagaio”.

“Os irmãos Frank, que à época conhecia por outros nomes, vieram de Montevidéu e por solicitação do Brizola, pararam em Foz do Iguaçu, cidade onde foram apresentados aos comandantes locais das Forças Armadas, como “pessoal” vindo de Brasília, do Departamento do Serviço de Repressão ao Contrabando do Ministério da Fazenda e por isso eles deveriam atual incógnitas e com nomes fictícios”, contou José Dionisio Canzi, ex-sargento (PE) do Exército e formado em odontologia, medicina, direito e economia, administração de empresas e contabilidade, tendo estudado até 1963, quando veio para o Oeste do Paraná, concursado e nomeado como Chefe da Mesa de Rendas Alfandegadas do Brasil (hoje Receita Federal).

“Não cogitava participar de movimentos de esquerda, mas meu nome acabou no Uruguai devido minha participação no Grupo dos Onze, fundado em todo o Brasil pelo Brizola, isso quando estudava direito na Universidade Federal do Rio de Janeiro, por isso passei a ser procurado por pessoas do movimento revolucionário e assim, sem querer, virei ativista e então formei um grupo em Foz do Iguaçu para futuras ações e só com elementos preparados em Cuba. Montei oito postos de pesca no rio Paraná, entre Foz e Porto Mendes, todos com guerrilheiros disfarçados de pescadores. Os quinze revolucionários, para não serem descobertos, nem se conheciam entre si. Os irmãos Franck é que conheciam à todos, a maioria cubanos”.

Segundo Canzi, os irmãos Franck -, que “participaram de treinamentos de guerrilha em Cuba - aqui em Foz do Iguaçu tiveram treinamento de repressão ao contrabando de café e assim subiram muitas vezes as corredeiras do “paranazão” em embarcações da Marinha e até fazendo o patrulhamento da fronteira junto com o Exército. Já eu, com o trabalho deles, obtive sucesso na apreensão de grandes contrabando de café do Brasil para o Paraguai, via o rio Paraná, porque detectavam antecipado quando iria passar contrabando e informavam através de bilhetes deixados em árvores ocas, previamente marcadas por nós, localizadas às margens da estrada que ligava Foz do Iguaçu a Porto Mendes. Toda noite estas informações eram apanhadas por mim rodando de Jeep e onde ia haver contrabando, sempre chegávamos de surpresa em operações conjuntas envolvendo todos os órgãos de repreenssão. O duro é que os dois comunistas, o tempo todo, enalteciam os ianques e atacavam os russos, ao ponto disto chamar à atenção.

“A primeira suspeita contra eles partiu do Sargento Esquerdo, do Batalhão do Exército de Foz do Iguaçu. Este sargento fazia redes de pesca para mim ceder aos guerrilheiros disfarçados de pescadores. Um dia o Esquerdo me falou: Ollha Canzi, esse teu pessoal é ligado a movimento de guerrilheiros”. Quase desmontei todo o esquema naquele dia, mas só fiz em 1969, quando o ex-sargento do Exército no Rio Grande do Sul e hoje o escritor Paulo Telles Franck, que conviveu com Brizola no Uruguai e veio para Foz do Iguaçu em 1965, após ter passado um dia com o Ernesto Che Guevara em Montevidéu, foi dar uma volta no centro de Foz do Iguaçu montado em um cavalo e acabou dando de cara com um oficial do Exército que foi seu comandante num Batalhão do Rio Grande do Sul e o reconheceu como um dos membros do Levante de Tenente Portela e Três Passos, liderado pelo coronel Jefferson Cardin de Alencar Osório”.

Pouco antes de ser morto na selva boliviana, Che Guevara passou por Foz do Iguaçu, vindo da Argentina.

Foi Canzi que levou o líder revolucionário de Foz do Iguaçu até Porto Mendes, município de Guaíra, com o Jeep da Receita Federal.

Quando esteve em Foz do Iguaçu, Ernesto Che Guevara presenteou Canzi com uma pistola suíça, - algo que Che só dava à “coronéis” de movimentos esquerdistas no mundo.

Guevara passou só uma noite em Foz. O iguaçuense Bruno Hermínio Ficht garante que o líder revolucionário dormiu na sua casa. "

(Texto extraído do livro “Fronteiras das emboscadas”, de Adelmo Müller, publicado em 1998.)
Adelmo Muller trabalhou como repórter na sucursal de vários jornais paranaenses, em Foz do Iguaçu.

 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



 
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