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ENSAIO

As línguas pedem o emprego

(*) Sidimar Rostan


O trabalho é uma das mais importantes representações da sociedade. Pois, por convenção, os atores transmutaram suas atividades de subsistência em ícones de identidade. Caráter que deveria encontrar sua equivalência no papel social do idioma. Mas que se destaca em função do processo de globalização e da conseqüente consolidação dos mercados transnacionais que recomenda o domínio de mais de uma língua em nome da qualificação profissional. Um esforço exigido pelo próprio mercado de trabalho que corrompe a natureza das línguas ao comprometer as suas capacidades de amparar as identidades. E é em nome do emprego que aos poucos os idiomas perdem o próprio.

A linguagem, enquanto conjunto de sinais falados, escritos ou gesticulados empenhados pelo homem na expectativa de exprimir suas idéias e sentimentos, tem a função social de promover a integração através da interação. E é assim, conservando o estado de harmonia, que a língua configura-se num organismo vivo da sociedade. Mas este espírito democrático que reside na efetivação da dinâmica dos idiomas se enfraquece diante de apropriações mecânicas. E foi a experiência brasileira com a didática dedicada a satisfação de demandas empresarias que fundou o processo que promoveria a redução do estudo dos idiomas estrangeiros ao status de aquisição de uma ferramenta. Pois o mercado de trabalho, no que tange o domínio de línguas, além de potencializar o caráter instrumental do idioma, o toma como fator de diferenciação no amálgama da competição, onde, promiscuída, a língua estrangeira renuncia ao puro poder de promover a integração.

O Mercosul - Mercado Comum do Sul - é um exemplo nítido da renuncia do poder de integração da língua. O acordo assinado em dezembro de 1994 pelos presidentes Itamar Franco, do Brasil, Carlos Menen, da Argentina, Luis Lacalle, do Uruguai e Juan Carlos, do Paraguai, instituiu a proposta de integrar os respectivos países pelo comércio. Este modelo não desenvolveu o potencial estimado justamente por concentrar os esforços de interação na esfera econômico/financeira. Em contrapartida, a velha proposta do caudilho venezuelano Simon Bolívar poderia demonstrar mais eficácia por privilegiar a integração sócio-cultural do continente, pois os países sul-americanos apresentam inúmeras semelhanças históricas em seus processos de colonização, emancipação e administração política. Estes fatores, quando devidamente compreendidos, podem estimular a simpatia pela identidade latina e assim alavancar o comércio fomentando o mercado de trabalho continental. E neste ínterim, devido a seu valor simbólico enquanto pilar da integração, a língua desempenha um papel fundamental.

O espanhol é praticamente o idioma materno da América Latina. Mas não abrange o Brasil, país que, por representar uma das principais economias do continente, deve dominar o espanhol como segunda língua para potencializar qualquer proposta de integração sul-americana. Mas os conceitos de Estado e de Nação, disseminados pela Revolução Francesa, impedem a adoção oficial de um segundo idioma, sobretudo por conveniência política. Pois a língua está no âmago do conceito de Estado por dedicar-se a delimitar as fronteiras naturais entre as Nações, ou seja, os conjuntos de indivíduos que habitam o mesmo território, têm os mesmos costumes e obedecem à mesma lei. É este sistema que nutre o sentimento que inviabiliza a convivência de duas línguas em uma mesma nação; o patriotismo. A interessante exceção é o Canadá, que, devido ao processo de colonização, possui duas línguas oficias: o inglês e o francês. Os idiomas viabilizam o fluxo de informações daquele país com o seu vizinho rico - os Estados Unidos - e com a União Européia - através da França - sem rejeitar a influência do contexto histórico na manutenção das identidades culturais regionais. E por isso os dois idiomas coexistem em relativa harmonia.

O caminho mais prático para promover a integração e estimular o desenvolvimento econômico resguardando a função social da língua encontra-se, então, na contextualização do ensino dos idiomas em um estudo que agregue noções históricas, econômicas, geográficas e culturais dos povos que representam. E o exemplo vem das regiões de fronteira, onde os indivíduos integrados por experiências semelhantes sustentam dialetos como o portunhol - típicos das cidades de fronteiras entre Brasil/Paraguai, Brasil/Uruguai e Brasil/Argentina. Neste contexto fronteiriço, o idioma, acolhendo com respeito as particularidades de cada cultura, ocupa seu devido lugar em um processo onde nunca é reduzido a simples código em nome de uma interação mecânica.

(*) Sidimar Rostan é jornalista. Texto publicado originalmente no portal www.adital.org.br

 

 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

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