Transcrição da entrevista concedida por Santos Dummont ao jornal "O Estado de São Paulo", no dia 11 de maio de 1916. Entre os temas tratados, a defesa da criação de uma parque para proteger as Cataratas do Iguaçu.

Conversando com Santos Dumont
Jornal O ESTADO DE SÃO PAULO
São Paulo, 11 de maio de 1916 – página 2.
Santos Dummont chegou hontem a S.Paulo. Aqui está uma notícia que a muita gente causará surpresa. Pois então, chegou hontem Santos Dummont, brasileiro celebre, o inventor do aeroplano - e não se fez nada na cidade, não se viu manifestação popular nenhuma, nem a mais simples demonstração oficial?... Infelizmente, comnosco é assim. Nós somos o povo das maximas expansões e da maior indifferença. Ou nos desmanchamos num enthusiasmo descompassado ou nos encolhemos na apathia mais desoladora. Melo termo, o precioso meio termo equillibrado das manifestações sinceras, é coisa que não conhecemos. Por isso, Santos Dummont que deveria ser recebido sempre entre nós com as demonstrações honrosas, chega sem ninguém o perceber quasi, e não com as homenagens quo lho são devidas. Entretanto, certa vez a sua chegada a S. Paulo foi um acontecimento que sacudiu de enthusiasmo toda a população.
Mas Santos Dummont continua a ser celebridade. Não se inventa impunemente o aeroplano! Não se faz em aviação o que elle fez, sem estar sujeito a todos os precalços da gloria... E logo nos acudiu entrevistal-o, conversar com elle alguns instantes, sobre os seus projectos futuros.
Alberto dos Santos Dummont é de pouca prosa. Evidentemente, faz pouco caso da sua celebridade e não gosta de “interviews”... Como, porém como é o mesmo rapaz simples e franco, não é difícil a ninguém trocar meia duzia de idéas ou de impressões com elle. Por menos que fale, sempre diz coisas interessantes...
Naturalmente, a conversa principia pela viagem. Que chegara bem, obrigado. Mas que viagem longa, da Argentina a S. Paulo, por terra! A sua, sobretudo, tivera um accrescimo de seis dias a cavallo, a 450 kilometros, uma distancia assim como daqui no Rio - porque, tendo ido vêr o Salto do Iguassú, quis vir de lá directamente a S. Paulo. Mas o salto do Iguassú, que maravilha! Compensa fartamente os incommodos da viagem.
- De Buenos Aires ao Iguassú, diz elle, são seis dias de viagem, tres de estrada de ferro e tres por via fluvial. Em todos os pontos onde desembarquei recebi as homenagens mais delicadas das autoridades argentinas. Chegando ao Salto do Iguassú fiquei, positivamente maravilhado. Imagine você num Niagara - ainda não viu o Niagara? pois imagine uma immensa quéda d’agua offerecendo o mais bizarro pittôresco deste mundo: cachoeiras numerosas e variadíssimas, ilhas espalhadas por alli, e a vegetação, e uma infinidade de aspectos bellíssimos. O Iguassú, sem exaggero nenhum, é uma maravilha. Maior, muito maior que o Niagara. O Niagara é uma formidável queda d’agua - mais nada. Não tem o lindo pittoresco do Iguassú. Poder-se-ia dizer que ha um Niagara saxonio nos Estados Unidos e um Niagara latino aqui no sul da América...
Dummont fala fluentemente, com enthusiasmo, um brilho vivo nos olhos escuros. Tez corada, no cabello a mesma falha que já tinha ha annos quando aqui esteve.
Vem do Chile, para onde tinha ido directamente para os Estados Unidos. Os longos mezes que passou nos Estados Unidos, passou-os a viajar, percorrendo as fabricas de aeroplanos.
- A maior fabrica de aeroplanos está nos Estados Unidos. É a Curtiss, com o capital de 16 milhões de dollars. Tudo quanto produz - ella e as outras - é para a Inglaterra. Naturalmente, emquanto durar a guérra, não póde ser de outra fórma: a Inglaterra compra tudo. Mas depois, essas fabricas não poderão acabar: hão de continuar a produzir, a fabricar aeroplanos. Teremos então o aproveitamento definitivo do aeroplano como meio de transporte. Na América, principalmente, onde há deficiencia de estradas de ferro, é que o aeroplano poderá prestar relevantissimos serviços, não só como meio de transporte postal, mas ainda como vehiculo de passageiros...
- Quantos?
- Não se pode ainda afirmar quantos passageiros poderá um apparelho transportar normalmente. Mas fique sabendo que já se transportaram vinte e nove pessoas num só apparelho. Não é uma bella lotação? Mas tudo isso, só depois da guérra.
Santos Dumont fala em seguida do Congresso Pan-Americano de Aviação, realizado em Santiago, no qual se estabeleceu a federação das sociedades da aviação de toda a America:.
- No Congresso, eu representei o Aero-Club Norte-Americano...
Estava nos Estados Unidos quando se annunciou o Congresso. Immediatamente, o Aero-Club Americano lho pediu que o representasse. Do Brasil, nenhum pedido semelhante recebeu. Por isso, officialmente, só representou aquella sociedade norte-americana de aviação. Particularmente, representava o seu paiz, que muito ama...
A propósito das festa a que assistiu em Santiago do Chile, Dumont conta que à sua chegada foi tal a agglomeração popular, tal a ancia do povo na estação, que, apesar dos 400 polícias e das ordens severíssimas, houve um tremendo atropelo, o povo invadiu a estação, e por pouco não ficou sem dia o ministro do Brasil...
Em Buenos Aires, como em Santiago, foi tratado admiravelmente...
- Tão admiravelmente que até se falou no seu casamento com uma senhorita argentina...
- Mentira, não houve nada, nem “fliris”. Mas não é a primeira vez que falam no meu casamento. Ao que parece, por aqui não se tem o direito de ser solteiro...
Santos Dumont pretende voltar à Argentina em Julho, por occasião dos festejos do centenario. Isso, a convite das sociedades de aviação argentinas. Então, tornará a visitar o Iguassú.
E volta a falar do prodigioso salto:
- Estou enthusiasmado com aquilo. Pretendo mesmo escrever um livro sobre o Iguassú, e livro com muitas gravuras. Quando passei por Curityba, fui falar com o presidente do Estado sómente sobre o Iguassú: pedir-lhe se intereses pelo salto, o torne mais fácil e commoda a excursão, imagine que não existe nem hotel por aquellas paragens.
Existe, com o nome de hotel, uma casinha, com dois quartos e uma sala, apenas...
A conversa torna ao centenario argentino, que agora se vai commemorar brilhantemente no paíz vizinho.
- Que se pretende fazer para festejar o nosso? Nada até agora? – Pois, na França, commemorações como essas começam a ser preparadas cm dez anos de antecedencia.
Aqui faz-se tudo á ultima hora, tão á ultima hora que até, frequentes vezes, se adia a festa para dois annos depois. Segundo parece, é o que vae succeder com o nosso centenario...
Santos Dumont cala-se. Comprehendemos que está finda a entrevista. E já de pé, já de chapéu na mão, temos ainda algumas informações: que por estes dias seguirá para o Rio, onde ficara uma semana ou pouco mais, tornando a S. Paulo para aqui ficar até principio de Julho. Em Julho partirá para Buenos Aires.

Registro de Santos Dumont como hóspede na pequena pousada citada por ele durante a entrevista.
Clique aqui para ver a pesquisa de Jackson Lima sobre como se escreve Cataratas do Iguaçu em 33 línguas diferentes.
Clique aqui, para acessar o blog de Jackon Lima.
Clique aqui para ver mais fotografias das Cataratas e do Parque Nacional do Iguaçu.
Clique aqui, para saber mais sobre as Cataratas do Iguaçu.
Clique aqui, para saber mais sobre o turismo na Tríplice Fronteira.
|