Miran reedita “A terra é a nossa mãe”
e se declara “mascate da arte popular”

Se você falar em Wilson Lopes de Carvalho ninguém por essas bandas do Paraná ouviu falar. Mas se você falar em Miran, as coisas mudam. Nos últimos 30 anos, esse cancioneiro popular já rodou a bolsinha pelos quatro cantos do Brasil. Também cantou, sobejou, versou, declamou até em outras terras latinas. Miran não para. A barriga ronca e lá vai esse poeta cantador, nascido no sertão de Mirandiba (PE), para mais uma de suas aventuras que liquidifica amor, cachaça, engajamento político-social e música. Miran transforma isso tudo na razão de ser, da existência de vida. Para que mais?
“Rapaz, me transformei em um mascate das artes”, diz Miran preste a lançar na próxima quarta-feira (28), a segunda edição do seu último livro “A terra é a nossa mãe”, 24 páginas – 10 mil exemplares, da mais pura literatura de cordel engajada na defesa do meio ambiente. O livro traz ilustrações de J. Borges - outro artista popular. A diagramação é de Huana Carvalho e Marcos Scotti. Huana é filha de Miran e “uma das coisas” que de melhor ele fez para “essa menina” foi “dar um computador quando ela tinha 12 anos”.
Miran está percorrendo as cidades do Paraná e “qualquer outra cidade brasileira que chamar” palestrando nas escolas, bibliotecas, teatros, associações e sindicatos sobre a origem da literatura sertaneja, a literatura do cordel e mistura isso com meio ambiente e música.
“A terra é um ventre fértil/sem terra não há riqueza/tudo que nasce da terra/é coisa da natureza/a terra mãe nos propõe/e tudo que tem dispõe/colocando sobre a mesa. Não maltrate nossa terra/não faça essa malvadeza/se ela não for cuidada/fartura vira fraqueza/a terra mãe nos propõe/e tudo que tem dispõe/colocando sobre a mesa” – são as duas primeiras das 16 estrofes da “A terra é a nossa mãe”.
Já “Amor pela natureza”, outro cordel que compõe o livro, também 16 estrofes e nas duas primeiras diz: “Da árvore eu quero o fruto/e a sombra para o frescor/o verde para meus olhos/para não mudar de cor/do amor quero a certeza/cuidado com a natureza/ternura, paz e amor. Quero a sua utilidade/no ambiente ecológico/o que poucos acreditam/eu sempre achei lógico/do amor eu quero a certeza/cuidado com a natureza/é um dever pedagógico”.
Esse é o quarto livro de Miran. De sua própria edição já lançou “Léguas de Amor”, “Canto É Caminhada” e “Até o Entendimento”. Autor de mais de 200 músicas – “já perdi a conta” -, o Miran compositor reclama que algumas foram apropriadas (eufemismo para “roubadas”, “plagiadas”) por outros compositores. É o caso do “O Cu do Mundo” que ganhou uma versão irreconhecível para Miran numa composição de Caetano Veloso. Miran conta ainda que já enviou 15 músicas para outro baiano, o ex-ministro de Cultura Gilberto Gil, mas que agora não teve qualquer retorno nem de sim, nem de não.
“Rapaz o que se apropriam das minhas músicas é uma coisa de louco”, diz Miran que durante a nossa conversa versou: “Cheiro de mato/cheiro de terra molhada/cheiro de mulher amada/cheiro de amor/cheiro de flor/é flor de gavirova/com cheiro de lua nova/no bico do beija flor”. É mais frevo/xote de Miran. “Tem a segunda parte”. Não precisa, disse.
Miran, você já fez samba? “Não”, respondeu. Então vai lá: “procurei um santo/pra me livrar de você/não quero mais saber/já sofri tanto/tantos descaminhos percorri/atrás de alguém que não me ama/atrás de alguém que nunca me fez feliz”. Acho que faltam mais duas partes, disse. “Faça, que eu coloco a melodia. Será o meu primeiro samba”, adiantou Miran.
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