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Fanzine iguaçuense faz aniversário fiel as origens


Edição de aniversário do Fanzine

Movimento do hip hop e comunidade underground de Foz do Iguaçu comemora o quarto aniversário do Fanzine Cartel do Rap. O zine chega a sua edição de número 45 com um invejável histórico de originalidade, liberdade, diversidade e contestação. Sem maquiagem e com muita garra os colaboradores do veículo apresentam de forma humilde que as mudanças são possíveis.

A luta pela transformação da sociedade é reforçada a cada edição. O assunto é apresentado, ora nas entrelinhas, ora de forma escancarada com poemas, crônicas e letras de rap ácidas. Com objetivo claro e a temática focada na vida do povo dos bairros da cidade, a publicação busca “compartilhar informações para uma sociedade mais justa e fraterna”.

Os protagonistas das tramas literárias apresentadas no “Cartel” são inevitavelmente pessoas com o nome de José, João, Maria ou, ainda, figuras que sustentam os mais prosaicos apelidos e sonhos, numa mistura de fatos reais e ficção. Esses personagens têm força entre os leitores porque espelham uma vida comum àquela dos muitos colaboradores do veículo. Melhor dizendo o fanzine é uma sincera narrativa da periferia iguaçuense.


Na foto de capa da primeira edição,
os fundadores do Cartel do Rap

Zine - Articulado e idealizado por Eliseu Pirocelli - conhecido no movimento por “Mano Zeu” ou “Lizal” - o Fanzine Cartel do Rap conquistou um significativo espaço entre as mídias alternativas da fronteira. Essa história teve início em fevereiro de 2005. Na época, os membros do Cartel do Rap, decidiram produzir um zine semelhante aos que já tinham acesso por meio do próprio movimento hip hop.

Os caminhos tomados pelo Fanzine Cartel do Rap tiveram influências de dois zines em especial: um, editado anualmente pelo DJ iguaçuense, Caê Traven, em memória ao Dia da Consciência Negra; e outro, organizado por jovens punks de Curitiba. Da união dessas idéias e outras leituras, surgiu à linha editorial do Fanzine da Banca CDR.

Na primeira edição, o time do zine ainda era pequeno. Com o passar do tempo, o que era apenas um treino, virou uma grande jogada de idéias. Já naquele número, o principal adversário da equipe foi o capitalismo e seus blocos econômicos. Outros destaques desta primeira temporada era a presença do grafite, a discussão sobre o MST e um texto polêmico versando a respeito das mazelas intrínsecas por trás do carnaval. O
Compondo a edição, o zine ofereceu aos seus leitores o quadro “poesias e pensamentos”, abrindo espaço para a produção literária de componentes do movimento que nascia na cidade.

A iniciativa de misturar política e economia com literatura é uma tentativa de municiar os jovens iguaçuenses com leituras mais críticas e desatreladas “do sistema consumista”. A iniciativa partiu do Mano Zeu, percebendo que muitos não tinham o hábito da leitura. “Buscamos atacar também na literatura e nas notícias jornalísticas, sempre voltadas para o bem estar da população da periferia”.

Zeu é um dos principais responsáveis pela circulação do fanzine em Foz. Ele pode ser comparado a um jogador com extremas habilidades. Parafrasenado um pensamento futebolístico popular, poderíamos dizer que ele “cabeceia, chuta, cobra escanteio e ainda pega no gol”.

Esta comparação é baseada no processo de produção do fanzine que é, aliás, encabeçado por ele. Zeu escreve, ilustra, seleciona os textos enviados pelos colaboradores, imprime, grampeia e entrega o zine pelas ruas. Ah, ainda “corre” atrás de papel, tinta de impressora, patrocinadores e possíveis colaborações de “qualquer” como costuma falar.

No inicio, a tiragem do zine, composto de quatro páginas, era de 500 cópias.  Hoje, adaptado às dificuldades financeiras, o “Cartel do Rap” diminuiu sua tiragem para 120 exemplares. Para compensar, ganhou mais 12 páginas em seu corpo. O que significa, em última análise, 1920 fotocópias a cada edição.
 “Temos poucos patrocinadores. Somos moradores de periferia e têm muitos de nós que estão desempregados ou ganham muito pouco. Dificilmente, sobra algo para ajudar nessa produção. Tanto que o Fanzine ficou parado por seis meses.”

Dá pra perceber, diante dos inúmeros obstáculos, que Zeu é um entusiasta da interação de jovens, ativistas culturais e a comunidade. “Quando eu converso com alguém que tem idéias interessantes eu incentivo, falo pra ele escrever sobre aquilo e enviar pra gente publicar e está dando certo. Eu também peço aos grafiteiros e artistas plásticos pra elaborarem desenhos relativos a tais temas, pra fazer uma arte pra capa e assim por diante. Todos os textos que foram enviados para o fanzine estão sendo publicados, pode até demorar um pouquinho, mas sempre sai”.

Um destes exemplos é Ana Carolina Miskalo. Estudante do curso de Letras da Unioeste participa da elaboração dos zines, desde suas primeiras tiragens. Para ela, o veículo tem um papel muito importante, “no zine não rola censura, você desenvolve sua idéia e é publicada.”

Rompimentos – Para a barreira econômica que limita a edição impressa do zine, a saída encontrada por Zeu e seus “manos” foi cria o blog do Fanzine. “Isso ta ajudando bastante na divulgação das idéias”, informa o editor.

Baseados nesse sucesso, o pessoal está ampliando o projeto eletrônico e está elaborando novos blogs com temas diversos. O blog do fanzine, no entanto, será reservado para reproduzir a edição impressa. “E ele vai seguir eclético com diversidade de idéias e de pensamentos”, destaca Zeu.

Esse trabalho de produção e circulação de idéias que está contido no projeto do Cartel do Rap, ajuda a romper a visão de marginalidade do movimento, revela o historiador Danilo George Ribeiro, que pesquisa o hip hop em Foz do Iguaçu, já faz algum tempo. “Escrevendo textos, poesias e poemas sobre o país, política, amor, saúde e todo o imaginário coletivo que permeia a vida das pessoas, o movimento revela que os pobres são capazes de pensar, agir e escrever sobre o mundo, sobre as coisas complexas e simples da vida”.

Ainda segundo o historiador, o papel desempenhado pelo Fanzine Cartel do Rap em Foz é impar. “... pauta alguns direitos negados da periferia além de criar um espaço de sociabilidade entre moradores que se conhecem e freqüentam as festas, shows e eventos, acho que é uma organização que rompe barreiras todo dia e busca uma união da periferia”.

(Wermerson Augusto, especial para Guatá)


• Conheça aqui um pouco mais da trajetória da Banca CDR

• Leia o ensaio "Hip Hop, expressões e narrativas", de Danilo Ribeiro

• A poesia da Banca CDR

• Acesse o blog do Cartel do Rap, clicando aqui


 

 

 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

 

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