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Mundo virtual:
afinal de contas, vivemos ou criamos?

(*) Izabel Leão

Vivemos ou não em um mundo virtual? Antes de responder, primeiramente, gostaria de refletir sobre os conectados e não conectados. Há aqueles que vivem 24 horas ligados na web, fazendo tudo ao mesmo tempo, ou conversando no chat do MSN, ou no skype, ou pesquisando no Google, ou mandando emails com vários endereços eletrônico, ou criando música e disponibilizando no MySpace, ou criando blogs pessoais. Conversam com conhecidos e desconhecidos. Perdem noites procurando com quem conversar e trocar informações, fotos, músicas, vídeo. Vasculham todos os links disponíveis na rede. Assistem a centenas de vídeos amadores no YouTube. Fazem laços virtuais de amizades com milhares de desconhecidos. Sabem dos últimos lançamentos das ferramentas de interação, denominadas mídias sociais disponíveis na web.

Há os conectados apenas o suficiente para se manterem informados. Há aqueles que passam as vezes pela web, mas consideram a vida real mais interessante e instigante. Também não podemos deixar de citar os que nem computador têm, muito menos internet e o fato de estarem conectados não passa de um sonho, por isso dizer que vivemos num mundo virtual é um tanto exagerado. Falta muito pra que essa virtualidade “matrix” vire realidade.

Eu me incluo na categoria dos que estão conectados, no entanto, conseguem largar o computador para ver um vídeo, namorar, conversar com amigos e viajar. Compartilho também textos, fotos, vídeos e áudios. Trabalho no computador escrevendo minhas matérias para o jornal da Universidade de São Paulo, pesquiso informações, bato-papo com amigos e também profissionalmente em programas de chat sem deixar de viver a realidade do dia-a-dia. Gosto dessa mistura do real com virtual.

Esse compartilhamento a distância tem criado um novo tipo de inteligência, que os teóricos da área denominam de inteligência coletiva. O mais conhecido é Pierre Levy que afirma que IC “é uma inteligência distribuída por toda parte, incessantemente valorizada, coordenada em tempo real, que resulta em uma mobilização efetiva das competências”.

É uma inteligência distribuída por toda parte. Ninguém sabe tudo, todos sabem alguma coisa. Todo o saber está na humanidade. Não existe nenhum reservatório de conhecimento transcendente, e o saber não é nada além do que o que as pessoas sabem, conclui Levy.

Daí podemos imaginar o quanto os internautas, independente da idade, do gênero, da religião, do credo, do país, contribuem para a formação de um conhecimento que ainda não se sabe muito bem o que é, mas é algo que não tem medida, não tem como interferir, nem controlar. Por um lado é bom porque somos mais livres para criar, para interagir. No entanto, não podemos deixar de ver que é um tanto preocupante, uma vez que as portas também se abrem para o que é obscuro e pernicioso, como é o caso dos sites de pedofilia, de sexo explícito, dos skinheads, de venda de drogas, entre outras distorções.

Como devemos agir? Proibir o uso da internet? Permitir que grandes corporações controlem? Na minha concepção tudo que é proibido é mais instigante. Não quero aqui ditar regras e muito menos ser a moral e os bons costumes de ninguém. Cabe a cada um saber o que vale para a sua vida. O que importa é estar atento ao que os jovens consomem na internet. Isso nem é tão difícil assim de fazer. Quando se dá uma bagagem de valores consistentes na infância, pode crer que esse jovem não terá dificuldade em definir o que é bom ou não pra vida dele. Também faz parte da vida de qualquer ser humano dar com os burros n’água. É crescimento.  É amadurecimento. Aos pais, aos cuidadores de crianças e jovens o papel hoje não é só de dar broncas e ficar regulando, controlando e, sim, de mediar. Mediar o que circula na vida real e virtual de seus filhos e alunos. Participar mais de perto do que eles andam pensando, ouvindo e consumindo. Procurar conversar mais sobre os vários assuntos que perpassam nosso cotidiano. Quanto mais abrirmos o universo de conhecimento dos jovens, mais eles vão saber opinar sobre o que é bom ou não, certo ou errado, que direção tomar, que caminho trilhar.

Entre os dias 20 e 25 de janeiro deste ano fui cobrir o Campus Party, em São Paulo. Um grande evento promovido pelas maiores empresas de informática do mundo, que reúne aficcionados do mundo virtual. Estes chegam a acampar no local, vivendo, todos juntos,uma semana de atividades tecnológicas intensas. São oficinas de tudo quanto é assunto: robótica, música, vídeo, software livre, desenvolvimento de software, blog, rede, 3D, e sei lá mais o que. Não pense você que só jovens lotavam o galpão. Esse é um assunto que não tem idade. É mais uma característica positiva da tecnologia da informação. Qualquer um pode fazer qualquer coisa, desde que se interesse por linguagens codificadas, alfanuméricas e tenha um pouco de professor Pardal (personagem de gibis da Disney) no DNA. Assim como afirmou o inventor da WWW, mais conhecida como internet, TIM Berners-Lee e eu assino embaixo: “a web precisa funcionar como infra-estrutura crítica para a sociedade”. Temos que nos apropriar dessa rede que nos abre a possibilidade de unificar uma grande força para transformar o mundo. Melhorar o meio ambiente, terminar com os políticos corruptos. Exigir transparência. Cobrar melhores resultados. Sabe como? Colocando na rede, na “boca do trombone”. O poder de disseminação é tão grande que não há como exprimir. Vide, como exemplo, a recente campanha presidencial de Barack Obama, nos Estados Unidos, que através da rede criou um sistema de informações poderossíssimo.

É pela rede que os cidadãos estão transgredindo. A conexão entre computadores, a possibilidade de construir um software livre em conjunto, como é o caso do Linux, que se encontra na rede com seu código aberto para que qualquer cidadão possa baixar em seu computador, ao contrário da Microsoft que cobra quantias aviltantes para que se tenha a permissão de uso dos seus softwares. É muito importante que a Internet permaneça aberta. O futuro está em nossas mãos. Se o browser que você usa não tem padrões abertos, não use esse browser. Nós fazemos a escolha. Nós, internautas, estamos no controle.

(*) Izabel Leão é jornalista, repórter do Jornal da USP. Mestre em Ciências da Comunicação, trabalha na linha de pesquisa de Educomunicação em São Paulo.

 

 

 

 

 
 
 
 
 
 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 




 

 

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