Entidades paraguaias pedem que Globo retifique programa Fantástico
Acompanhe "LEJANIA", letra e música de Hermínio Gimenez,
interpretado pelo grupo "Família Cardoso"
Entidades de promoção da cultura paraguaia estão pedindo a retificação do programa “Fantástico”, da emissora Rede Globo, que anunciou a música “Lejanía” como sendo uma composição popular do Brasil.
A obra, escrita em 1937, é de autoria do compositor paraguaio Hermínio Gimenez (1905-1991), ícone da cultura de raiz latino-americana, e tem uma versão em português bastante difundida, chamada “Meu primeiro amor”, feita pelo brasileiro José Fortuna, com anuência do compositor paraguaio. Esta adaptação integra a trilha sonora do filme “Lula, o filho do Brasil”, sobre a vida do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O pedidos de reparação formalmente apresentados à Globo foram feitos pelas associações Ateneu da Língua e Cultura Guarani, Alma Guarani e Núcleo Cultural Guarani Paraguay Teete, entre outras organizações.
Na carta enviada à emissora brasileira, o Núcleo Cultural Guarani Paraguay Teete escreve:“O que mais nos choca, é que quando as notícias são negativas a respeito de nosso país, a informação é transmitida pelo repórter ou locutor nos mínimos detalhes, dando a impressão que antes de ser divulgada passou por um intenso processo de investigação jornalística”. E prossegue: “Enfim, o mínimo que esperamos de uma empresa jornalística como a Rede Globo é que num programa de mesma audiência, ou seja, no próprio Fantástico, seja apresentada uma errata/complemento e um pedido de desculpas aos quase 70 mil paraguaios residentes no Brasil e aos 6 milhões de paraguaios que formam um país humilde, sofrido, mas honesto, com os mesmos valores e direitos de qualquer outra nação”, reitera o documento.
A convenção da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura, que trata da diversidade cultural, garante o acesso e a difusão dos bens culturais expressos nas mais diferentes formas e linguagens. Entretanto, também assegura que as obras não podem sofrer alterações ou modificações sem o consentimento de seu autor.
Vários jornais paraguaios também estamparam o descontentamento com a confusão em torno da música, como o “ABC Color” e o “La Nación”, de maior circulação.
Por erro, má fé, omissão ou simples desconhecimento, o fato, de um lado, amplifica o debate sobre as questões que envolvem o direito autoral sobre as criações artísticas e culturais. De outro, chama a atenção para a importância da figura do maestro Hermínio Gimenez, artista engajado na luta pelas liberdades democráticas na América do Sul, durante toda a sua vida.
VOZ E LIBERDADE – Polêmicas de lado, o caso envolvendo a música “Lejanía”, contudo, remete à grandiosidade da produção artística de Hermínio Gimenez, falecido em 1991. O compositor e maestro guarani produziu muitas músicas que embalaram gerações, em vários países. Mas, sem dúvida, a mais conhecida internacionalmente é a guarania “Lejanía”, que foi adaptada em dezena de línguas, em várias partes do mundo.
Envolvido na luta contra a ditadura instalada em seu país por Alfredo Stroesnner, no século passado, Gimenez viveu exilado muitos anos, inclusive no Brasil, onde trabalhou como arranjador e maestro na indústria fonográfica nacional, em especial na gravadora Continental. A obra de Hermínio Gimenez deve ser revisitada e apreciada sempre, pela singeleza, genialidade e devoção à cultura latino-americana.