PARAGUAI
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Guarani, o supremo
Paraguaios defendem o guarani como língua oficial efetiva.
Roa Bastos ganha versão no idioma de origem indígena
Defender uma língua é preservar e incentivar a manutenção de toda uma cultura. Na contracorrente da homogenização cultural que varre o mundo, ganha força entre os paraguaios um movimento em favor do guarani.
Na prática, a reivindicação pede que o guarani passe a ter mesmas condições de uso e de expressão do espanhol, inclusive, podendo ser empregado em documentos formais como peças jurídicas e administrativas e publicações oficiais.
A mobilização em favor deste sistema lingüístico demonstrou força durante a programação alusiva ao dia nacional em defesa do guarani, celebrado em 25 de agosto. O idioma é mais usado pelos falantes paraguaios que o espanhol, língua trazida pelos conquistadores, caso único em toda a América. Mesmo assim, o guarani chegou a ser proibido durante um longo período, chegando até mesmo a ser reprimido.
O guarani é uma das expressões da identidade do povo paraguaio. Ganhou a condição de língua oficial na década de 1990, ao lado do castelhano. O idioma enfrenta hoje a forte influência que recebe do espanhol, fenômeno chamado de “espanholismo”, além de não ser contemplado na escrita formal da vida pública do país vizinho.
O movimento em defesa do guarani reúne diversos segmentos sociais, representantes de governos e estudiosos e pede a aprovação do projeto batizado de Ley de Lenguas, uma regulamentação na Constituição Nacional para normatizar o uso do guarani nas várias esferas administrativas. Entre as modificações garantidas na proposta, os falantes em guarani poderão utilizar esta língua durante sessões em fóruns e tribunais.
A escritora Susana Delgado, uma das defensoras do projeto de línguas, sustenta que o guarani é falado por 86% da população paraguaia e que 27% se comunicam apenas neste idioma.
No Paraguai, são reconhecidas três variações do guarani: o missionário ou jesuítico, falado durante o período das missões jesuíticas na região, entre os séculos dezessete e dezoito; o tribal, forma comunicação de algumas etnias paraguaias; e, guarani paraguaio, falado pela maioria da população do país.
A mobilização em favor do guarani tem ganhado cada vez mais adeptos. Há poucos dias, Rigoberta Menchú Tum, ganhadora do Prêmio Nobel da Paz, em 1992, manifestou o seu apoio a aprovação da Ley de Lenguas, durante o IV Foro Social Américas, ocorrido em Assunção. Da mesma forma, o Ministro da Educação e a Corte Suprema de Justiça do Paraguai expressaram opinião favorável ao projeto.
ROA BASTOS EM GUARANI – A força e a vitalidade do guarani surpreende até mesmo os estudiosos e acadêmicos de linguas. São incontáveis as iniciativas em terras paraguaias voltas para a promoção e valorização deste idioma. Na literatura, por exemplo, a obra deixada pelo escritor Augusto Roa Bastos está sendo traduzida para o guarani, graças ao esforço dos professores Das Nieves Domínguez e Enrique Chamorro. Até aqui, o casal que ministra aulas de guarani já traduziaram “Los juegos de Carolina y Gaspar”, “Pollito de fuego”, “Los carpincheros” e “El Baldío”.
Paraguaio de Assunção, Augusto Roa Bastos (1917-2005) escreveu ensaios, poemas e romances. Foi dos mais prestigiados escritores latino-americanos contemporâneos, tendo sido homenageado com o Prêmio Miguel de Cervantes. A sua obra está traduzida em cerca de 25 línguas.
Entre a dificuldades e alegrias de se viver do guarani, os tradutores Domínguez e Chamorro se preparam para o maior desafio, que é o fazer a transcrição na língua indígena do livro “Eu, o supremo”, obra de Roa Bastos considerada de maior desenvoltura.
Além de Roa Bastos, traduziram para o guarani o livro “O Pequeno Prínicipe”, de Saint Exupery e trabalham na obra “A civilização guarani”, de Moisés Bertoni.
Para saber mais sobre a língua guarani, clique aqui.
(Paulo Bogler/Guatá/com Guarani ñe ê)
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