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MEMÓRIA


Argentina, irmã de desaparecido,
pede que Dilma abra arquivo da ditadura


       

”Gostaria que todo mundo soubesse que não há heróis anônimos. Eles eram pessoas, e tinham nomes, tinham rostos, desejos e esperança”. O diário dramático do militante tcheco Júlio Fuchik, descrito durante a prisão, enquanto aguardava a própria execução pelos nazistas, em 1943, e que mais tarde se tornaria o livro “Testamento sob a forca”, bem poderia converter-se no pedido feito pela psicóloga argentina Lilian Ruggia, apresentado à presidente Dilma Rousseff, para que sejam abertos os arquivos secretos do período do regime militar que vigorou no Brasil entre o período 1964-1985.

O encontro entre Lilian e Dilma aconteceu em Buenos Aires, durante a visita oficial da presidente brasileira. Antes da audiência com Lilian Ruggia, Dilma encontrou-se com mães e avós da Praça de Maio, que até hoje pedem punição aos militares envolvidos nos crimes da ditadura argentina e ainda lutam para encontrar o paradeiro dos “desaparecidos políticos” do país vizinho. 

A psicóloga portenha é irmã de Henrique Ernesto Ruggia, militante de esquerda assassinado no há 36 anos no interior do Parque Nacional do Iguaçu, na região de Foz do Iguaçu, quando acompanhava o grupo da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), atraídos por um agente infiltrado a serviço dos aparelhos de repressão das forças brasileiras. Com apenas 18 anos de idade, Henrique foi morto na emboscada em 1974,  juntamente com os irmãos Joel e Daniel Carvalho, José Lavecchia e Vitor Carlos Ramos. O líder da VPR Onofre Pinto foi preso na ocasião e assassinado poucos dias depois.

Até hoje, Lilian Ruggia procura pelo corpo de seu irmão. À presidente Dilma, pediu agilidade na abertura dos arquivos do regime fardado brasileiro, a fim de encontrar mais informações sobre a morte de seu irmão.

O jornalista iguaçuense Aluísio Palmar é autor do livro “Onde foi que vocês enterraram nossos mortos”, lançado pela Travessa dos Editores, em 2005, que trata do trabalho de inteligência, preparação e assassinato do jovem argentino, juntamente com o chamado “Grupo do Onofre”. Palmar, que foi militante da luta armada brasileira, chegou a ser convidado para participar do movimento de volta protagonizado pelos ativistas de esquerda que viviam em outros países, exilados ou na clandestinidade em outros países. Em seu livro, o jornalista revela informações prestadas por militares e outros envolvidos na emboscada.

Recriando o drama vivido pelos militantes de esquerda através do universo ficcional, o jornalista Silvio Campana é autor do texto “Conto portenho”, editado em 2004, na edição número zero da Revista Escrita, publicação da Associação Guatá. Na narrativa, Campana, que havia entrevistado Lilian Ruggia para o jornal Nosso Tempo quase dez anos antes, tenta sorver o gosto amargo do vazio sentido por ela, ao se dar conta da partida sem volta do jovem irmão. O conto, onde Lilian é a personagem Lucinda, diz: “...Primeiro o caminho. E o primeiro caminho é o sangue, única ponte neste hiato que a calçada se abrindo em leque deixou. As violetas murchando em março no amparo à solidão de uma partida; uma garganta seca, uma ausência...”

Clique aqui, para saber mais sobre o livro “Onde foi que vocês enterraram os nossos mortos?”.

Clique aqui, para ler o texto “Conto portenho”.

 

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(Paulo Bogler/Guatá)

 

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